Tratado sobre os Princípios - Livro I 4
Livro I
A Natureza da Defecção e do Afastamento
Para ilustrar a natureza da defecção ou do afastamento daqueles que se comportam de forma descuidada, não será inadequado usar uma analogia como exemplo. Suponha, então, o caso de alguém que gradualmente se familiarizou com uma arte ou ciência, digamos, geometria ou medicina, até atingir a perfeição, tendo se treinado por um longo tempo em seus princípios e prática, de modo a alcançar um domínio completo sobre a arte: para tal pessoa, nunca poderia acontecer que, ao dormir possuindo sua habilidade, acordasse em um estado de ignorância.
Não é nosso propósito mencionar ou notar aqui os acidentes causados por lesões ou fraquezas, pois eles não se aplicam à nossa ilustração atual. De acordo com nosso ponto de vista, enquanto aquele geômetra ou médico continuar a se exercitar no estudo de sua arte e na prática de seus princípios, o conhecimento de sua profissão permanece com ele; mas, se ele se afastar de sua prática e abandonar seus hábitos de diligência, então, por sua negligência, inicialmente algumas coisas gradualmente escapam dele, depois, pouco a pouco, mais e mais, até que, com o tempo, tudo será esquecido e completamente apagado da memória.
É possível, de fato, que quando ele começar a se afastar e ceder à influência corruptora de uma negligência que ainda é pequena, ele possa, se for despertado e retornar rapidamente aos seus sentidos, reparar as perdas que até então são apenas recentes e recuperar o conhecimento que até então havia sido apenas levemente apagado de sua mente. Vamos aplicar isso agora ao caso daqueles que se dedicaram ao conhecimento e à sabedoria de Deus, cujo aprendizado e diligência superam incomparavelmente todos os outros treinamentos; e vamos contemplar, de acordo com a forma da analogia usada, o que é a aquisição do conhecimento ou o que é seu desaparecimento, especialmente quando ouvimos do apóstolo o que é dito sobre aqueles que são perfeitos, que verão face a face a glória do Senhor na revelação de Seus mistérios.
Mas, em nosso desejo de mostrar os benefícios divinos concedidos a nós pelo Pai, Filho e Espírito Santo, que são a Trindade, fonte de toda santidade, acabamos, no que dissemos, caindo em uma digressão. Tendo considerado que o tema da alma, que veio à tona acidentalmente, deveria ser abordado, ainda que superficialmente, já que estávamos discutindo um tópico relacionado à nossa natureza racional.
A Classificação dos Seres Racionais
No entanto, com a permissão de Deus por meio de Jesus Cristo e do Espírito Santo, consideraremos mais convenientemente no lugar apropriado o tema de todos os seres racionais, que são distinguidos em três gêneros e espécies.