Diálogo de Justino Mártir com Trifão 88
Manifestação do Espírito na vida de Cristo
Assim, entre nós, podem-se ver homens e mulheres que possuem carismas do Espírito de Deus. Desse modo, foi profetizado que as potências do Espírito, enumeradas por Isaías, deveriam vir sobre Cristo, não porque ele estivesse falto de seu poder, mas porque daí por diante não deveriam mais existir. Seja também de testemunho para vós o que contei sobre aquilo que fizeram os magos da Arábia, os quais, apenas nascera o menino, foram adorá-lo.
É que desde o seu nascimento ele teve seu próprio poder. Depois foi crescendo conforme o desenvolvimento comum de todos os outros homens, usou os meios adequados de vida, deu a cada crescimento o que lhe correspondia, comeu de todo tipo de alimentos e permaneceu oculto mais ou menos trinta anos, até que apareceu João, precedendo-o como arauto de sua vinda e adiantando-se a ele no caminho do batismo, como já demonstrei antes.
Foi então que, vindo Jesus ao rio Jordão, onde João estava batizando, desceu à água e acendeu-se um fogo no Jordão; quando subiu da água, os que foram apóstolos desse nosso Cristo escreveram que voou sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba.
Sabemos que Cristo foi ao Jordão não porque tivesse necessidade do batismo, nem de que viesse sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba, como também não se dignou nascer e ser sacrificado porque necessitasse disso, mas por amor ao gênero humano, que desde Adão havia incorrido na morte e no erro da serpente, cada um cometendo o mal por sua própria culpa.
Com efeito, tendo Deus criado homens e anjos dotados de livre-arbítrio e autonomia, quis que cada um fizesse aquilo para o qual foi por ele capacitado e, caso escolhessem o que lhe é agradável, iria mantê-los isentos de morte e castigo.
Caso, porém, cometessem o mal, castigaria cada um como lhe aprouvesse.
Nem o fato de entrar em Jerusalém, montado num jumento, conforme demonstramos que estava profetizado, lhe deu o poder de ser Cristo, mas deu ele um sinal aos homens de que era Cristo, do mesmo modo que nos dias de João teve que ser dado um sinal pelo qual os homens reconhecessem que ele era Cristo.
Com efeito, quando João estava junto ao Jordão, pregando o batismo de penitência, cingido por um cinturão de pele e vestido de pêlos de camelo, comendo apenas gafanhotos e mel silvestre, as pessoas pensavam que ele era Cristo. Ele, porém, lhes gritava: “Eu não sou o Cristo, mas uma voz daquele que grita. De fato, virá outro mais forte do que eu, cujas sandálias não sou digno de carregar ”.
Quando Jesus chegou ao Jordão, ele era considerado como filho do carpinteiro José, e apareceu sem beleza, como as Escrituras haviam anunciado, e ele próprio foi considerado como carpinteiro. Foi assim que fabricou obras dessa profissão — arados e jugos — enquanto estava entre os homens, ensinando por meio deles o símbolo da justiça e o que é uma vida de trabalho. Foi então que, por causa dos homens, como já disse antes, o Espírito Santo voou sobre ele em forma de pomba e, ao mesmo tempo, veio do céu uma voz, a mesma que foi dita por meio de Davi, quando o próprio Pai disse pessoalmente o que este diria a Cristo: “Tu és o meu filho, eu hoje te gerei”. O Pai chama nascimento de seu filho o momento em que o conhecimento dele chegaria aos homens.