Diálogo de Justino Mártir com Trifão 87
Cristo e a potência do Espírito
Tendo eu falado essas coisas, Trifão disse:
— Não quero que penses que te faço minhas perguntas com a única intenção de atrapalhar o que dizes. Quero antes aprender a respeito dos pontos sobre os quais te pergunto.
Dize-me, agora: de um lado, Isaías diz: “Sairá um rebento da raiz de Jessé e uma flor subirá da raiz de Jessé e sobre ele descansará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de ciência e piedade, e o Espírito a encherá do temor de Deus”, por outro lado, tu me confessaste que essa passagem se aplica a Cristo e afirmas que ele é Deus preexistente e que, por desígnio do Pai, nasceu encarnado da virgem. Como se pode demonstrar que preexiste aquele que é enchido de todas as potências do Espírito Santo, que aí a palavra enumera por meio de Isaías, como alguém que não as tivesse?
Eu lhe respondi:
— Perguntaste com agudez e inteligência, pois realmente parece haver aqui uma dificuldade. Escuta, porém, o que vou dizer, para que entendas também porque ela existe. A palavra não diz que as potências do Espírito aqui enumeradas viriam sobre ele como se estivesse falto delas, mas porque elas iriam descansar sobre ele, isto é, que nele teria fim o fato de que em vosso povo continuasse a haver profetas, como antigamente. Isso podeis confrontar com vossos próprios olhos. Com efeito, depois de Cristo não surgiu entre vós absolutamente nenhum profeta.
Considerai que os próprios profetas que existiram entre vós, cada um deles recebeu uma ou outra potência de Deus para falar e realizar aquelas coisas que nós agora conhecemos por meio das Escrituras. Prestai atenção no que vos digo. Salomão teve espírito de sabedoria, Daniel de inteligência e conselho, Moisés de fortaleza e piedade, Elias de temor e Isaías de ciência. O mesmo se pode dizer dos outros, que tiveram cada um uma só, ou uma alternando com a outra, como Jeremias, os Doze, Davi e, em geral, todos os profetas que existiram entre vós.
Descansou, portanto, quer dizer cessou, tendo vindo aquele depois do qual, cumpridos os tempos dessa sua dispensação entre os homens, haveriam de cessar em vós e, descansando nele, como foi profetizado, converter-se novamente em dons da mesma graça do poder daquele Espírito, que Cristo reparte entre os que nele crêem, a cada um conforme ele julga ser digno.
Já vos disse como foi profetizado que ele deveria fazer isso depois de sua ascensão aos céus, e agora vos repito. A Escritura diz: “Subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos filhos dos homens”. E se diz de novo em outra profecia: “E, depois disso, acontecerá que derramarei meu Espírito sobre toda carne, sobre meus servos e minhas servas, e profetizarão”.