Diálogo de Justino Mártir com Trifão 49

Discussão em torno do precursor

Trifão replicou:
Parece-me que os que afirmam que Jesus foi apenas homem e que por eleição foi ungido e tornado Cristo dizem coisas mais críveis do que vós, ao dizer o que dizes. Todos nós, com efeito, esperamos o Cristo, que nascerá como homem, de homens, e a quem Elias virá ungir. E este se apresenta como o Cristo, deve-se pensar absolutamente que é homem, nascido de homens. Contudo, pelo fato de Elias não ter vindo, afirmo que esse não é o Cristo.
Eu então perguntei-lhe novamente:
A palavra de Deus, por meio de Zacarias, não diz que Elias virá antes do grande e terrível dia do Senhor?
Ele me respondeu:
Certamente.
Eu continuei:
Portanto, a palavra de Deus leva-nos a admitir que foram profetizadas duas vindas: uma, em que havia de aparecer passível, desonrado e disforme; outra, em que viria glorioso e como juiz universal, como se demonstra pelos muitos testemunhos alegados. Isso não nos leva a entender que a palavra de Deus anunciou que Elias seria precursor de Cristo na segunda vinda, isto é, do dia temível e grande?
Ele me respondeu:
Certamente.
Eu continuei:
Isso também nosso Senhor nos deixou em seus ensinamentos, quando disse que Elias devia vir, e nós sabemos que isso acontecerá quando nosso Senhor Jesus Cristo voltar do céu com glória. Na sua manifestação, o Espírito de Deus o precedeu como arauto, que esteve em Elias, também esteve em João, profeta do vosso povo, depois do qual nenhum outro profeta tornou a aparecer entre vós. Sentado junto ao rio Jordão, João gritava: “Eu vos batizo com água para a penitência; mas virá outro mais forte do que eu, cujas sandálias não mereço carregar. Ele vos batizará com Espírito Santo e com fogo. Sua está em sua mão, e ele limpa a sua eira, e reunirá o trigo no celeiro e queimará a palha com fogo inextinguível”.
Vosso rei Herodes mandou prender no cárcere esse mesmo profeta e, durante a festa do seu aniversário, uma sobrinha sua o agradou muito com sua dança, e ele falou que ela lhe pedisse o que desejasse. A mãe da jovem lhe sugeriu que pedisse a cabeça de João, que estava no cárcere; ela fez o pedido, e o rei mandou um carrasco e deu ordem que trouxesse a cabeça do profeta sobre uma bandeja.
Foi por isso que o nosso Cristo, estando ainda sobre a terra, ao lhe dizerem alguns que antes do Cristo deveria vir Elias, respondeu: “Sim, Elias virá e restabelecerá tudo, mas eu vos asseguro que Elias veio e não o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram”. E está escrito que “então seus discípulos perceberam que ele lhes havia falado de João Batista”.
Trifão retrucou:
Também me parece absurdo o fato de que digas que o Espírito profético de Deus, que esteve com Elias, também esteve em João.
Eu lhe respondi:
Não te parece que o mesmo aconteceu com Josué, filho de Nave, que sucedeu a Moisés na direção do povo? Deus mandou que Moisés lhe impusesse as mãos, dizendo: “Transferirei sobre ele parte do Espírito que em ti”.
Trifão disse:
Certamente.
Eu continuei:
Portanto, da mesma forma que, estando Moisés ainda entre os homens, Deus transferiu sobre Josué parte do Espírito que nele estava, assim também pode fazer que de Elias o Espírito passasse para João. Assim como a primeira vinda de Cristo foi sem glória, também a primeira vinda do Espírito, apesar de permanecer sempre puro em Elias, foi sem glória, como a de Cristo.
Com efeito, dizem que o Senhor guerreava contra Amalec com mão oculta. Entretanto, não podes negar que Amalec caiu. Se apenas com a vinda gloriosa de Cristo se dissesse que Amalec deveria ser combatido, que sentido teria a Escritura que diz: “Deus guerreia contra Amalec com mão oculta?” Portanto, podeis compreender que o Cristo crucificado teve alguma força oculta de Deus, pois diante dele os demônios e todos os principados e potestades da terra estremecem.