Diálogo de Justino Mártir com Trifão 39
Acrescentei:
— Não é de admirar que vós vos irriteis com essas coisas que entendemos e que vos interroguemos a partir da dureza de vosso coração. De fato, orando a Deus, Elias disse a vosso respeito: “Senhor, mataram teus profetas e derrubaram teus altares; fiquei só e eles me buscam. E Deus responde: Ainda me restam sete mil homens que não dobraram seus joelhos diante de Baal”.
Do mesmo modo que, por amor desses sete mil homens, naquela época Deus não executou a sua ira, assim também agora ele não desencadeou, nem desencadeia o julgamento universal, pois ele sabe que diariamente existem aqueles que se fazem discípulos do nome de Cristo e abandonam o caminho do erro. Estes, iluminados pelo nome desse Cristo, recebem dons conforme cada um o merece; um recebe o espírito de inteligência, outro de conselho, outro de fortaleza, outro de cura, de presciência, de ensinamento e de temor de Deus.
Trifão contestou:
— Quero que saibas que estás delirando ao falar essas coisas.
Eu respondi:
— Amigo, escuta e verás que não estou louco nem delirando. De fato, foi profetizado que após sua ascensão ao céu, Cristo nos tiraria do cativeiro do erro e nos daria dons. É o que dizem as seguintes palavras: “Subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens”.
Portanto, nós que recebemos dons de Cristo, que subiu às alturas, vos demonstramos pelas palavras dos profetas que sois insensatos, vós que vos considerais sábios e entendidos diante de vós mesmos. Vós não honrais a Deus e a seu Cristo senão com os lábios; nós, porém, o honramos também com nossas obras, com o conhecimento e de coração, até a morte.
O motivo por que vacilais em confessar a Jesus como Cristo, como as Escrituras o demonstram, os fatos evidentes e os prodígios que acontecem em seu nome, talvez seja porque não sois perseguidos pelos governantes. Estes, sob a ação do espírito mau e enganador, da serpente, não cessarão de matar e perseguir aqueles que confessarem o nome de Cristo, até que ele retorne, destrua a todos e dê a cada um o que merece.
Trifão insistiu:
— Dá-nos agora a razão de que esse que dizes ter sido crucificado e ter subido ao céu é o Cristo de Deus. De fato, que o Cristo é anunciado nas Escrituras como sofredor, que virá novamente com glória para receber o reino eterno de todas as nações e que todo reino lhe será submetido, está suficiente demonstrado pelas Escrituras que citaste. Contudo, que ele seja Jesus, isso terás agora que nos demonstrar.
Eu contestei:
— Senhores, isso está já demonstrado aos que têm ouvidos e pelo que vós confessastes. Entretanto, para que não penseis que estou embaraçado e que não posso trazer-vos as provas que pedis e que eu prometi, no momento oportuno eu as apresentarei. Por enquanto, quero voltar ao que pede a ilação dos meus raciocínios.