Diálogo de Justino Mártir com Trifão 38
Trifão disse:
— Amigo, seria bom que tivéssemos obedecido a nossos mestres que nos mandaram por lei não conversar com nenhum de vós, e não nos teríamos comprometido a participar dos teus discursos. Com efeito, estás dizendo muitas blasfêmias, pretendendo nos convencer de que esse crucificado existiu no tempo de Moisés e Aarão e que lhes falou na coluna de nuvem; que depois se fez homem, foi crucificado, subiu ao céu e há de vir outra vez à terra e que deve ser adorado.
Eu então lhe respondi:
— Sei muito bem que, como diz a palavra de Deus, essa grande sabedoria do Criador do universo e Deus onipotente está oculta para vós. É por isso que, por compaixão de vós, coloco todas as minhas forças para que compreendais esses nossos paradoxos. Assim ao menos eu serei inocente no dia do julgamento. Escutai agora palavras que vos parecem ainda mais paradoxais. Não vos alvoroceis, mas, reanimados, continuai ouvindo-as e examinando-as, e desprezai a tradição de vossos mestres, pois o espírito profético os acusa de incapacidade para compreender os ensinamentos de Deus e de estarem voltados apenas para suas próprias doutrinas.
Assim, pois, no salmo 45 se diz igualmente, referindo-se a Cristo:
“Do meu coração brota um belo hino e eu digo: minhas obras são para o rei. Minha língua é pena de escriba rápido. És belo por tua formosura sobre os filhos dos homens. A graça está derramada sobre os teus lábios. Por isso, Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada ao flanco, ó poderoso; com beleza e formosura põe-te em marcha, caminha prosperamente e sê rei, por causa da realeza, da mansidão e da justiça, e a tua direita te guiará maravilhosamente. Tuas flechas são afiadas, ó poderoso; os povos cairão a teus pés, e elas irão diretas ao coração dos inimigos do rei.
Ó Deus, o teu trono é para o século dos séculos e o cetro do teu reino é cetro de retidão. Por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de regozijo, mais que os teus companheiros. Tuas roupas recendem mirra, aloés e cássia nos palácios de marfim, das que te alegraram. Filhas de reis estão em teu cortejo, a rainha postou-se à tua direita, vestida com manto de ouro e grande variedade de cores. Escuta, filha, olha e inclina o teu ouvido: esquece o teu povo e a casa do teu pai, e o rei cobiçará a tua formosura. Porque ele é o teu Senhor e a ele adorarão.
A filha de Tiro vem com presentes: os ricos do povo suplicarão a teu rosto. Toda a glória da filha do rei vem de dentro; ela está vestida com franjas de ouro em variedade de cores. As donzelas que a seguem serão conduzidas ao rei; suas companheiras serão a ti conduzidas. Conduzidas com regozijo e alegria, elas serão introduzidas no palácio real. Em lugar de teus pais nascerão filhos para ti e tu os constituirás príncipes sobre toda a terra. Eu me lembrarei do teu nome de geração em geração, e os povos te confessarão pelos séculos e pelos séculos dos séculos”.