Diálogo de Justino Mártir com Trifão 40
As figuras do verdadeiro sacrifício
De fato, o mistério do cordeiro que Deus mandou sacrificar como Páscoa era figura de Cristo, com cujo sangue os que nele crêem, segundo a fé nele, ungem suas casas, isto é, a si mesmos. Com efeito, todos vós podeis compreender que a figura que Deus plasmou, isto é, Adão, converteu-se em casa do espírito que ele lhe insuflara. E que esse mandamento foi temporário vos posso demonstrar do seguinte modo.
Deus não vos permite sacrificar o cordeiro pascal a não ser no lugar em que seu nome é invocado. E isso ele sabia que iria acontecer um dia depois da paixão de Cristo, em que o mesmo lugar de Jerusalém seria entregue aos vossos inimigos e todas as oferendas terminariam por completo.
Por outro lado, o cordeiro que era mandado assar completamente era símbolo da paixão da cruz que Cristo devia sofrer. Com efeito, assa-se o cordeiro colocado em forma de cruz, pois uma ponta do espeto o atravessa dos pés à cabeça, e a outra atravessa- lhe as costas e nela se apóiam as partes dianteiras do cordeiro.
Também os dois bodes que se mandava sacrificar no jejum eram iguais; um deles era feito emissário e o outro se destinava ao sacrifício. Anunciavam as duas vindas de Cristo: numa delas, os vossos anciãos do povo e sacerdotes o enviavam como emissário, lançando suas mãos sobre ele e matando-o; na outra, no mesmo lugar de Jerusalém, reconhecereis aquele que foi desonrado por vós e que era a vítima de todos os pecadores que queiram fazer penitência e jejuar, conforme aquele jejum a que se refere Isaías, rompendo os laços dos contratos violentos e observando tudo o que o profeta enumera e que nós citamos antes, e é justamente o que fazem aqueles que crêem em Jesus.
Vós sabeis que o sacrifício dos bodes que se mandava oferecer no dia do jejum também não era permitido fazer-se em nenhuma parte fora de Jerusalém.