Diálogo de Justino Mártir com Trifão 120

Os herdeiros das bênçãos de Isaac e Jacó

Vede como as mesmas coisas são prometidas a Isaac e Jacó. Com efeito, diz o seguinte para Isaac: “Em tua descendência serão abençoadas as nações da terra”. E para Jacó: “Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as tribos da terra”. Isso ele não diz a Esaú, Rubem ou a nenhum outro, mas somente para aqueles dos quais, por dispensação através de Maria virgem, haveria de nascer o Cristo.
Se consideras a bênção de Judá, verás o que eu digo. A descendência se divide a partir de Jacó e vai baixando através de Judá, Farés, Jessé e Davi. Tudo isso era símbolo de que alguns do vosso povo se achariam entre os filhos de Abraão, por encontrar- se também na parte de Cristo; outros, porém, são filhos de Abraão, mas semelhantes à areia da praia do mar, que é infecunda e sem fruto. Certamente é numerosa e impossível de contar; porém, não produz absolutamente nada e serve para beber a água do mar. Isso prova que uma grande parte da vossa gente bebe as doutrinas da amargura e da impiedade e vomitam a palavra de Deus.
A bênção de Judá diz: “Não faltará príncipe de Judá, nem chefe de seus músculos, até que venha aquele a quem está reservado. E ele será a esperança das nações. É evidente que isso não se disse sobre Judá, mas de Cristo. De fato, nós, gente de todas as nações, não esperamos Judá, mas Jesus, que também tirou vossos pais do Egito. A profecia anunciou o advento de Cristo: “Até que venha aquele a quem está reservado. E ele será a esperança das nações”.
Jesus, portanto, veio como demonstramos fartamente. E Jesus, cujo nome profanais e fazeis com que seja profanado por toda a terra, é esperado novamente, vindo sobre as nuvens.
Eu continuei:
Se fosse possível, discutiria convosco sobre a expressão que interpretais, dizendo que o original é: “Até que venha o que lhe está reservado”. Os setenta não interpretaram assim, mas: “Até que venha aquele a quem está reservado”.
Como o que vem em seguida indica que se disse de Cristo
de fato, diz: “E ele será a esperança das nações” eu não discuto convosco por causa de uma pequena frase, do mesmo modo como não me empenhei em fundamentar minha demonstração sobre Jesus Cristo em Escrituras que não são reconhecidas por vós, como as passagens que citei do profeta Jeremias, de Esdras e de Davi, mas naquelas que até agora vós reconheceis. Se os vossos mestres as tivessem entendido, sabei que eles as teriam feito desaparecer, como aconteceu com a morte de Isaías, que serrastes com uma serra de madeira. Isso também foi mistério de Cristo, que cortará em duas partes a gente do vosso povo, e concederá aos que merecem um reino eterno com os patriarcas e profetas, mas enviará os demais para o suplício do fogo inextinguível, juntamente com aqueles que, procedentes de todas as outras nações, são incrédulos como eles e não se arrependem. De fato, ele disse:
“Porque virão do ocidente e do oriente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do reino serão atirados nas trevas exteriores”.
Acrescentei:
Digo-vos isso porque não me preocupo com nada além de dizer a verdade. Não temerei ninguém,
ainda que tivesse de ser imediatamente despedaçado por vós. A prova é que, sem me preocupar em nada com meus conterrâneos, isto é, com os samaritanos, comuniquei por escrito ao imperador que estão enganados em seguir o mago Simão, de seu próprio povo, que eles afirmam ser deus, acima de todo princípio, poder e força.