Diálogo de Justino Mártir com Trifão 119
O florescimento do novo povo
Eu então continuei:
— Amigos, por acaso pensais que poderíamos entender esses mistérios nas Escrituras se não tivéssemos recebido graça para entendê-los, por vontade daquele que assim quis? Desse modo, se cumpriria o que foi dito por Moisés:
“Irritaram-me com seus deuses estrangeiros, exacerbaram-me com suas abominações. Sacrificaram a demônios que não conhecem; vieram novos e recentes, dos quais seus pais não tinham notícia. Abandonaste o Deus que te criou, esqueceste o Deus que te alimenta. O Senhor viu isso, teve ciúmes, exacerbou-se pela ira de seus filhos e filhas, e disse: Afastarei deles a minha face e mostrarei o que lhes acontecerá nos últimos tempos. De fato, esta é uma geração perversa, filhos nos quais não há fidelidade. Excitaram-me ciúmes com um não-deus e irritaram-me com seus ídolos; por isso, eu também lhes excitarei ciúmes com um não-povo, os irritarei com um povo insensato. Acendeu-se um fogo em minha indignação, que abrasará até o fundo do Hades, devorará a terra e seus produtos, queimará os alicerces dos montes. Amontoarei catástrofes sobre eles”.
Depois que esse Justo foi crucificado, nós florescemos como povo novo e brotamos como espigas novas e férteis, da maneira como os profetas disseram: “Naquele dia, nações se refugiarão no Senhor para ser povo, e plantarão suas tendas no meio de toda a terra”. Nós, porém, não somos apenas povo, mas povo santo, como já demonstrei: “E o chamarão de povo santo redimido pelo Senhor”.
Não somos, portanto, uma plebe desprezável, uma tribo bárbara, uma nação de cários ou frígios, mas Deus nos escolheu e, aos que não perguntaram por ele, se tornou manifesto ao dizer: “Eis que sou Deus para um povo que não havia invocado o meu nome. De fato, esse é o povo que outrora Deus prometera a Abraão, anunciando-lhe que seria pai de muitas nações, e não se referia aos árabes, egípcios ou idumeus, pois Ismael também foi pai de um grande povo, assim como Esaú, e ainda agora os amonitas são bastante numerosos. Quanto a Noé, ele foi pai do próprio Abraão e, em geral, de todo o gênero humano, seja qual for a linha dos antepassados.
Que vantagem Cristo concedeu aqui a Abraão? Tendo-o chamado por sua voz com o mesmo chamamento que nos fez, ao dizer-lhe que saísse da terra onde habitava, pela mesma voz também nos chamou e já deixamos aquela maneira de viver e malviver dos outros moradores da terra. E com Abraão herdaremos a terra santa, tomaremos posse de uma herança eterna sem fim, porque somos filhos de Abraão, pois temos a sua mesma fé.
Assim como Abraão creu na voz de Deus e isso lhe foi reputado como justiça, nós também cremos na voz de Deus, pois ele nos fala novamente pela boca dos apóstolos de Cristo, depois que ele foi anunciado pelos profetas, e por essa fé renunciamos até à morte a tudo o que pertence ao mundo. Portanto, Deus lhe promete um povo igualmente crente, religioso e justo, alegria do Pai, e não a vós, que não tendes fé.