Diálogo de Justino Mártir com Trifão 114

Só os circuncisos de coração entendem as Escrituras

Algumas vezes, o Espírito Santo fazia realizar ações que eram figuras do futuro; outras vezes, pronunciava palavras sobre o que iria acontecer, falando como se os fatos estivessem acontecendo ou tivessem acontecido. Se os leitores não perceberem esse procedimento, não poderão entender devidamente o que os profetas falaram. Como exemplo, vou citar algumas passagens para que compreendais o que estou dizendo. Quando o Espírito diz, por meio de Isaías: “Como ovelha fui levado ao matadouro e como cordeiro diante de quem o tosquia”, fala como se a paixão estivesse realizada. O mesmo acontece quando diz: “Eu estendi minhas mãos para um povo que não crê e contradiz”. E ainda: “Senhor, quem acreditou naquilo que ouviu de nós?”. As palavras são ditas como se se referissem a algo acontecido. demonstrei que em muitas passagens, por comparação, Cristo é chamado pedra e, por translação de sentido, Jacó e Israel.
Se quando o profeta diz: “Contemplarei os céus, obras de teus dedos”, não o entendo como operação de seu Verbo, teria que interpretá-lo nesciamente, como vossos mestres pretendem, imaginando que o Pai do universo e Deus ingênito tenha mãos, pés, dedos e alma, como um animal composto; assim, como ensinam também, que foi o próprio Pai que apareceu a Abraão e Jacó.
Portanto, felizes somos nós que recebemos a segunda circuncisão, feita com facas de pedra. Com efeito, a vossa circuncisão foi feita e continua a ser feita com facas de ferro, pois continuais duros de coração; a nossa, porém, que é a segunda circuncisão, vinda depois da vossa, é feita com pedras pontiagudas, isto é, com as palavras da pedra angular, que se desprendeu sem que ninguém a tocasse, pregadas pelos apóstolos, que nos circuncidam absolutamente da idolatria e de toda a maldade. E nossos corações ficaram tão circuncidados de todo o mal, que até nos alegramos de morrer pelo nome dessa magnífica Pedra, que faz brotar nos corações dos que por meio dela amam o Pai do universo, uma fonte de água viva, na qual se saciam todos os que desejam beber a água da vida.
Contudo, ao dizer- vos tudo isso, vós não me entendeis, pois também não entendestes o que está profetizado que Cristo iria fazer. E quando nós vos levamos até às Escrituras, vós não nos dais crédito. Com efeito, Jeremias grita: “Ai de vós, que abandonastes a fonte viva e cavastes para vós cisternas rotas, que não podem conter a água! Por acaso o lugar onde está o monte Sião é um deserto? Por-que entreguei a Jerusalém um libelo de repúdio diante de vós”.