Diálogo de Justino Mártir com Trifão 102
Comentários ao salmo 22:10-16
O salmo continua: “Minha esperança desde os peitos de minha mãe: sobre ti fui lançado desde o seio dela. Desde o ventre da minha mãe, tu és o meu Deus. Não te afastes de mim, porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra. Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre. Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato”. Tudo isso é um anúncio antecipado do que realmente aconteceu.
Quanto às palavras: “A minha esperança desde os peitos de minha mãe”: apenas nascido em Belém, como eu disse antes, já quis matá- lo o rei Herodes, que fora informado pelos magos da Arábia e, por ordem de Deus, José tomou o menino e foi para o Egito com Maria. Isso porque o Pai havia determinado que Aquele que ele próprio havia gerado não morresse, até que, chegando à idade adulta, tivesse anunciado a sua palavra.
Talvez alguém nos pergunte: “Não poderia Deus de preferência matar Herodes?” Ao que respondo logo: Não poderia Deus no princípio ter eliminado a serpente, para não ter que dizer: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela?” Não poderia Deus criar imediatamente uma multidão de homens?
Todavia, como ele sabia que era coisa boa, criou os anjos e os homens livres para realizar o bem e determinou os tempos até o momento que ele sabe que será bom eles possuírem livre-arbítrio. E porque igualmente considerou bom, estabeleceu julgamentos universais e particulares, embora sem atentar contra a liberdade. É assim que a palavra diz na construção da torre, quando houve a multiplicação e confusão das línguas: “O Senhor disse: Eis uma só raça e um só lábio. E começaram a fazer isso. Agora não desistirão de qualquer coisa que tenham empreendido”.
Também é uma profecia do que, por vontade do Pai, deveria acontecer a Cristo, as seguintes palavras: “Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato”. Com efeito, a força de sua poderosa palavra, com a qual confundia sempre os fariseus e escribas que discutiam com ele e, em geral, os mestres do vosso povo, ficou contida, como uma fonte impetuosa de abundante água, cuja corrente fosse desviada, pois ele se calou e, diante de Pilatos, não quis responder a ninguém uma só palavra, como se conta nas Memórias dos Apóstolos. E assim cumpriu-se claramente o que foi dito por meio de Isaías: “O Senhor me deu língua para conhecer quando devo dizer uma palavra”.
Dizer que “tu és o meu Deus, não te afastes de mim” é, ao mesmo tempo, algo de quem nos deseja ensinar que todos nós devemos colocar a nossa confiança no Deus que fez todas as coisas e somente nele procurar salvação e socorro, e não pensar, como o comum dos homens, que podemos nos salvar por nossa descendência, riqueza, força ou sabedoria. Isso é o que vós fizestes sempre, certa vez fabricando para vós um bezerro de ouro e sempre vos mostrando ingratos e assassinos dos justos, e ao mesmo tempo, vos orgulhando de vossa descendência. Com efeito, se o Filho de Deus nos diz que não pode salvar-se sem a ajuda de Deus nem por ser Filho, nem por ser forte ou sábio, mas por ser impecável, não ter pecado nem pela palavra como diz Isaías: “Não cometeu pecado, nem se encontrou engano em sua boca” — como não percebeis que vos estais enganando a vós mesmos, vós e os outros que esperais salvar-vos sem essa confiança?