Diálogo de Justino Mártir com Trifão 103
O que em seguida se diz no salmo: “Porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra. Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Abriram contra mim a sua boca, como leão esperto e rugidor. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água”, foi igualmente uma antecipação do que realmente lhe aconteceu. Com efeito, na noite em que pessoas do vosso povo, enviadas pelos fariseus, escribas e mestres, o atacaram no monte das Oliveiras, aí o rodearam aqueles que a palavra chama de novilhos bravos e destruidores.
Acrescentando: “Touros fortes me cercaram”, profeticamente indicou os que agiram de modo semelhante aos novilhos, quando Jesus foi conduzido diante dos vossos mestres. A palavra os chama de touros, porque sabemos que dos touros procedem os novilhos. Portanto, assim como os touros são pais dos novilhos, da mesma forma os vossos mestres foram a causa de que seus filhos saíssem para prender Jesus no monte das Oliveiras e o conduzissem diante deles. Também as palavras: “Não há quem me socorra” exprimem o que aconteceu, pois de fato ninguém, nem um só homem, saiu para defender sua inocência.
As palavras: “Abriram contra mim a sua boca, como leão rugidor”, significam aquele que então era rei dos judeus e também se chamava Herodes, sucessor daquele outro Herodes que, quando Jesus nasceu, matou todos os meninos nascidos em Belém naquele tempo, acreditando que entre eles pegaria inevitavelmente aquele de quem lhe haviam falado, ao chegar, os magos da Arábia; ele não sabia o plano daquele que é mais forte que todos, o qual tinha mandado José e Maria tomarem a criança e partirem com ele para o Egito e aí permanecerem até que de novo lhes revelasse que poderiam voltar para a sua própria terra. Com efeito, ali permaneceram retirados até que morreu Herodes, o assassino dos meninos de Belém, e lhe sucedeu Arquelau. Este, porém, morreu antes que Cristo chegasse, conforme a vontade do Pai, segundo o plano por este disposto de morrer crucificado.
Herodes sucedeu, portanto, a Arquelau, tomou o poder que lhe correspondia. E foi a ele que Pilatos, para se reconciliar, enviou Jesus amarrado. Deus sabia de antemão que is- so aconteceria, e por isso falou assim: “Amarraram-no e o levaram ao assírio, como presente para o rei.
Deu ao diabo o nome de leão que ruge contra ele, o qual Moisés chama de serpente, que em Jó e Zacarias é chamado de diabo, e que é apelidado por Jesus de Satanás, nome composto cujo significado foi tomado daquilo mesmo que o diabo fazia. De fato, Satan, tanto na língua dos hebreus como dos sírios, significa apóstata; nas, em hebraico, quer dizer serpente. Satanás é composto dessas duas palavras.
Quando Jesus acabava de sair do rio Jordão e ouvia a voz que lhe dizia: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”, está escrito nas Memórias dos Apóstolos que o diabo, aproximando-se dele, o tentou até dizer-lhe: “Adora-me”. A isso, Cristo retrucou: “Retira-te, Satanás. Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás”. Do mesmo modo como ele conseguiu enganar Adão, se dizia que ele poderia lhe fazer algo.
As palavras: “Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre”, também foram uma profecia do que aconteceu naquela noite em que o foram prender no monte das Oliveiras.
Com efeito, nas Memórias, que eu digo terem sido compostas pelos Apóstolos ou por aqueles que o seguiram, está escrito que ele derramou suor com gotas de sangue, quando orava e dizia: “Se for possível, afaste-se este cálice”. Isso evidentemente porque seu coração e seus ossos tremiam, como se o seu coração fosse cera derretida em seu ventre. Com isso, podemos ver como verdadeiramente o Pai quis que seu Filho, por amor a nós, passasse por esses sofrimentos. E não nos aconteça dizer que, sendo ele Filho de Deus, não era afetado por nada do que fazia ou passava.
A frase: “Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato” era, como eu disse antes, profecia de seu silêncio, pois ele, que havia chamado de ignorantes os vossos mestres, não respondeu nada a ninguém.