Concordia do Livre Arbítrio - Parte VI 3
Parte VI - Sobre a providência de Deus
Artigo II: Tudo está sujeito à providência divina?
1. Nossa conclusão é afirmativa e é um dogma de fé, como podemos ler em Sabedoria 8:1: 'Ela se estende poderosamente de um extremo ao outro e governa tudo com suavidade'; em Sabedoria 12:13: 'Não há outro Deus além de Ti, que cuidas de tudo'; e também em Sabedoria 14:3: 'Tua providência, Pai, governa tudo desde o princípio'. Mas isso também pode ser demonstrado com um argumento racional, porque Deus faz ou permite tudo por causa de um propósito; portanto, todas as coisas estão sujeitas à providência divina, que, em algumas ocasiões, as ordena para um propósito e, em outras ocasiões, permite que ajam ou não as impede por causa de algum propósito.
2. Em relação aos pecados, eles não são resultados diretos da providência divina, como se Deus os desejasse ou os causasse — isso seria um erro de fé. Em vez disso, Deus permite que os pecados ocorram para alcançar propósitos maiores, como já discutimos anteriormente. Às vezes, a providência divina impede o pecado; outras vezes, ela lida com os atos pecaminosos, pois Deus age em conjunto com as escolhas livres das pessoas. Ele não as faz pecar, mas permite que usem sua liberdade para escolher entre o bem e o mal, algo que Deus deseja para o melhor dos fins. No entanto, quando as pessoas abusam dessa liberdade, Deus não é a causa direta do pecado, mas sim a causa universal que permite que ele ocorra. O pecado, portanto, não é um efeito direto da providência divina, mas algo permitido por Deus para alcançar um propósito maior. 3. Sobre eventos aparentemente aleatórios, Santo Tomás de Aquino explica que nada é realmente acidental em relação a Deus, pois Ele prevê e permite tudo. No entanto, isso não significa que Deus direcione todos os eventos. Basta que Ele os preveja e permita, deixando que as coisas aconteçam de acordo com suas naturezas. Às vezes, as coisas dão errado, ou eventos inesperados ocorrem devido à interação de causas diferentes. Esses eventos podem parecer acidentais para nós, mas não para Deus. Por exemplo, se alguém se afoga ao nadar, isso não significa que Deus quis que isso acontecesse, mas que Ele permitiu que ocorresse. Discutiremos mais sobre isso no próximo artigo.
4. Ao responder ao terceiro argumento, Santo Tomás destaca que a providência divina abrange tudo o que é necessário para o funcionamento do universo, como os eclipses futuros, o nascer e o pôr dos astros, entre outros fenômenos naturais. No entanto, a providência humana não se estende a esses eventos. Isso ocorre porque Deus, como Criador da natureza, age por meio de Seu livre-arbítrio, sendo a causa de todas essas coisas. Embora esses eventos possam parecer necessários em relação ao universo, eles são, na verdade, contingentes ou livres em relação a Deus, como já discutimos em nossos comentários à questão 3, artigo 4 (disputa 1). Por outro lado, o ser humano não tem o poder de produzir ou impedir tais efeitos. Portanto, como a providência só se aplica ao que está sob o controle do provedor, a providência divina abrange todos esses fenômenos, enquanto a providência humana não.
5. Sobre a resposta de Santo Tomás ao último argumento, é importante notar que, embora a providência divina se aplique a todas as coisas, Deus exerce uma providência especial sobre algumas. Isso significa que, através de leis, orientações e outras formas de ajuda específicas, Ele guia e apoia certas pessoas para que alcancem um propósito sobrenatural, enquanto cuida de todas as coisas para o bem comum. Por isso, quando São Paulo menciona 'boi' em I Coríntios IX, 9, ele está se referindo às leis nas Escrituras que Deus estabeleceu para ensinar e orientar, especialmente em relação aos costumes e ao governo da Igreja. Ele questiona: 'Acaso Deus se ocupa dos bois?', sugerindo que o verdadeiro propósito dessas leis é instruir e guiar os seres humanos, particularmente no contexto da Igreja. Assim, entendemos que Deus tem uma providência especial sobre os justos, especialmente aqueles que Ele escolhe para propósitos específicos, protegendo-os mais cuidadosamente dos perigos e dificuldades e ajudando-os de maneira mais eficaz a realizar boas obras.