Concordia do Livre Arbítrio - Parte IV 6
Parte IV - Sobre a presciência de Deus
Discussão 52: Deus conhece os eventos futuros que dependem de escolhas livres? E como a liberdade humana e a natureza incerta desses eventos se relacionam com esse conhecimento divino?
1. Embora o que vamos discutir aqui possa ser facilmente compreendido a partir do que já foi dito, ainda assim, é importante apresentar esta discussão para refutar alguns argumentos e para que se entenda com mais clareza como a liberdade humana e a natureza imprevisível das coisas se harmonizam com o conhecimento prévio de Deus.
2. Assim, no texto mencionado, Santo Tomás inicia apresentando três argumentos que defendem a ideia de que Deus não possui conhecimento sobre eventos futuros contingentes.
Primeiro: Uma causa que age de forma necessária produz um efeito que também é necessário. A ciência de Deus é a causa dos eventos futuros que Ele conhece, pois, como explicamos anteriormente, Deus é a causa de todas as coisas por meio de sua ciência, e Ele age de maneira necessária. Portanto, tudo o que é conhecido por essa ciência divina acontece de forma necessária. Consequentemente, não pode haver em Deus conhecimento de algo que seja contingente.
3. Em segundo lugar: Se uma afirmação condicional é verdadeira e sua condição inicial é absolutamente necessária, então o resultado também será absolutamente necessário. Caso contrário, em uma relação correta, a condição inicial poderia ser verdadeira e o resultado falso, o que é completamente inaceitável. Mas esta afirmação condicional é verdadeira: Se Deus sabia que algo vai acontecer, então isso realmente acontecerá; caso contrário, o conhecimento de Deus seria falso. Além disso, a condição inicial é absolutamente necessária, pois é eterna e já passou, já que não há poder sobre o passado. Portanto, o resultado também será absolutamente necessário e, assim, nenhum futuro conhecido por Deus será incerto.
4. Em terceiro lugar: Tudo o que Deus sabe deve acontecer, assim como tudo o que os seres humanos sabem também deve ocorrer. No entanto, o conhecimento de Deus é muito mais certo do que o nosso. Mas, como nenhum evento futuro contingente acontece de forma inevitável, conclui-se que Deus não pode conhecer esses eventos futuros contingentes.
5. Podemos também apresentar os seguintes argumentos. Em quarto lugar: Nada que Deus tenha previsto pode deixar de acontecer. Portanto, o que Deus previu não pode ser considerado um evento contingente. A conclusão é clara, pois um evento contingente é aquele que pode ou não acontecer, sem uma determinação prévia. O argumento inicial se prova da seguinte forma: Se algo que Deus previu que aconteceria não ocorresse, então Deus estaria errado; portanto, se esse evento pudesse não acontecer, Deus poderia estar enganado, o que é impensável e completamente impossível.
6. Em quinto lugar: As coisas que são indicadas por declarações sobre eventos futuros incertos não se tornam mais necessárias só porque Deus as conhece de forma definitiva. Isso seria o mesmo que dizer que essas declarações, por si só, tornam os eventos inevitáveis. Aristóteles, em seu livro 'De Interpretatione', capítulo 9, argumenta que se as declarações sobre eventos futuros incertos fossem definitivamente verdadeiras, então os eventos que elas descrevem aconteceriam necessariamente. Isso significaria que nossas escolhas e decisões não teriam efeito real, e nossa liberdade de escolha seria uma ilusão. Portanto, se o conhecimento de Deus sobre esses eventos é definitivo, isso implicaria que todos os eventos aconteceriam de forma inevitável, sem espaço para o acaso ou a contingência. Nossas deliberações seriam inúteis, e a liberdade de escolha que temos desapareceria completamente.
7. Em sexto lugar: A presciência de eventos futuros parece eliminar a liberdade de escolha. Portanto, a liberdade de escolha e a presciência divina de eventos futuros contingentes não podem coexistir, e uma das duas deve ser negada. A conclusão é clara. O argumento é o seguinte: Se Deus, desde a eternidade, previu que Pedro pecará amanhã, então Pedro necessariamente pecará amanhã. Essa conclusão se baseia na certeza do conhecimento divino, que não pode conter erro. Assim, se Deus não pode estar errado em seu conhecimento, a conclusão é inevitável. Se alguém não pode evitar que o antecedente de uma conclusão necessária seja verdadeiro, também não pode evitar que o consequente seja verdadeiro; caso contrário, seria possível que o antecedente fosse verdadeiro e o consequente falso, o que contradiz a natureza de uma conclusão correta. Portanto, como Pedro não pode mudar o fato de que Deus, desde a eternidade, previu que ele pecará amanhã (nem mesmo Deus pode mudar o passado), Pedro também não pode evitar pecar no dia seguinte. Assim, a presciência divina parece anular a liberdade de escolha de Pedro.
8. De acordo com as Escrituras Sagradas, é absolutamente claro que Deus tem conhecimento prévio dos eventos futuros que dependem de escolhas humanas. Negar isso não é apenas uma insensatez, como Santo Agostinho afirma em 'A Cidade de Deus' (Livro 5, Capítulo 9), mas também um erro evidente em questões de fé.
As Escrituras afirmam repetidamente que Deus conhece todas as coisas antes que aconteçam. No Salmo 138, 3-4, lemos: 'De longe conheces meus pensamentos; discernes quando caminho e quando descanso; previste todos os meus caminhos; pois ainda não está a palavra na minha língua e Tu já, Senhor meu, sabes tudo'. Da mesma forma, o livro da Sabedoria (8, 8) ensina que Deus conhece os milagres e os eventos antes de sua realização. O Eclesiástico reforça essa ideia, afirmando que 'os olhos do Senhor são mais claros que o sol' e que 'antes que todas as coisas fossem criadas, já as conhecia Ele' (Eclo 23, 28-29).
Além disso, o profeta Isaías testemunha a presciência divina, declarando que Deus revela o futuro para mostrar sua soberania (Is 41, 23; 48, 5). No Novo Testamento, Jesus confirma essa verdade ao dizer: 'Eu vo-lo disse agora, antes que acontecesse, para que, quando acontecer, creiais' (Jo 14, 29). O autor da Carta aos Hebreus (4, 13) também enfatiza que 'não há coisa criada que não seja manifesta aos seus olhos'.
Portanto, Deus não apenas conhece os eventos à medida que ocorrem, mas os sabe desde sempre, pois sua ciência é eterna e imutável. Se Deus não conhecesse os futuros contingentes, a profecia perderia sua validade e as Escrituras seriam comprometidas. Tertuliano reforça esse argumento ao afirmar que 'a presciência de Deus tem tantas testemunhas quantos profetas Ele criou' (*Adversus Marcionem*, Livro 2). Assim, a doutrina cristã sustenta firmemente que Deus possui conhecimento absoluto de tudo o que acontecerá, reafirmando sua soberania e fidelidade.
9. Precisamos entender que Deus possui três tipos de conhecimento, se quisermos conciliar corretamente a liberdade humana e a natureza imprevisível das coisas com a presciência divina. O primeiro é o conhecimento puramente natural, que não pode mudar em Deus. Por meio dele, Deus conhece tudo o que o Seu poder pode realizar, seja diretamente ou através de causas secundárias. Isso inclui tanto as coisas que são necessárias por natureza quanto as que são contingentes, ou seja, que podem ou não acontecer. No entanto, esse conhecimento não determina se essas coisas vão ou não ocorrer; ele apenas reconhece que elas poderiam acontecer de maneira indiferente. Essa é uma característica essencial desses eventos futuros, e por isso eles fazem parte do conhecimento natural de Deus.
Outra forma de conhecimento é totalmente livre, onde Deus, sem qualquer condição ou hipótese, conhece de maneira absoluta e definitiva, a partir de todas as possibilidades contingentes e após o ato livre de sua vontade, quais eventos realmente ocorrerão e quais não ocorrerão.
Por fim, a terceira é a ciência média, pela qual Deus, em sua essência, vê — graças à sua compreensão suprema e insondável de todo livre-arbítrio — o que cada pessoa faria por sua própria liberdade, se fosse colocada em qualquer uma das infinitas ordens de coisas possíveis. No entanto, na realidade, a pessoa também poderia escolher o oposto, se assim desejasse, como já explicamos nas disputas 49 e 50.
Primeiro, devemos responder que esse conhecimento não pode ser chamado de 'livre', pois ele vem antes de qualquer decisão livre da vontade de Deus e porque Deus não pode saber algo diferente do que Ele realmente sabe por meio dele. Segundo, também não pode ser chamado de 'natural', como se fosse algo inato a Deus de tal forma que Ele não pudesse saber o contrário do que sabe por meio dele. Afinal, se o livre-arbítrio das criaturas escolhesse o oposto, o que está ao seu alcance, Deus saberia isso mesmo e não o que Ele sabe atualmente. Portanto, não é mais natural para Deus saber uma parte da contradição — que depende do livre-arbítrio das criaturas — do que saber o oposto.
Portanto, é preciso entender que esse conhecimento pode ser visto de duas maneiras. Em parte, ele é um conhecimento natural, porque existe antes de Deus decidir livremente o que fazer e porque Deus não pode saber algo diferente por meio dele. Em outra parte, ele é um conhecimento livre, porque o fato de que um lado de uma escolha acontece antes do outro depende da liberdade humana. Ou seja, se as pessoas fossem criadas em diferentes situações, elas escolheriam uma coisa em vez de outra, mesmo que pudessem escolher qualquer uma das duas opções igualmente.
Certamente, isso é necessário por causa da liberdade da vontade humana, que, mesmo diante da presciência divina, continua sendo um ponto de fé tão importante quanto a própria presciência e a predestinação, como explicamos detalhadamente na disputa 23. Isso também é claramente confirmado pelos testemunhos dos santos, que citaremos mais adiante. Esses testemunhos estão em harmonia com a opinião comum dos teólogos, que já mencionamos parcialmente na disputa anterior e sobre a qual falaremos um pouco mais.
No entanto, para evitar que esta doutrina cause inquietação ao leitor à primeira vista, é importante lembrar que tudo o que será discutido a seguir está em plena harmonia e coerência em todos os aspectos.
Não há nada que uma criatura possa fazer que Deus também não possa fazer.
Por causa de seu poder infinito, Deus pode direcionar nossa liberdade de escolha para onde Ele quiser, exceto para o pecado; pois isso criaria uma contradição, como já explicamos na disputa 31.
Tudo o que Deus realiza por meio de causas secundárias, Ele também pode realizar diretamente, a menos que o efeito exija que venha dessas causas secundárias.
Deus pode permitir que os pecados aconteçam, mas Ele não os ordena, nem os incentiva ou leva as pessoas a cometê-los.
Da mesma forma, quando algo com livre arbítrio se inclina para um lado ou outro, em uma determinada situação e circunstâncias, isso não ocorre por causa da presciência divina. Na verdade, Deus prevê isso porque o ser com livre arbítrio age livremente. Também não ocorre porque Deus deseja que ele faça algo, mas porque o ser com livre arbítrio escolhe livremente fazer isso. Isso mostra claramente que o conhecimento pelo qual Deus prevê, antes de decidir criar esse ser com livre arbítrio, o que ele faria se fosse colocado em certas condições, depende do que o ser com livre arbítrio escolherá livremente fazer. Por outro lado, o conhecimento pelo qual Deus sabe, de forma absoluta e sem hipóteses, o que realmente acontecerá por causa do livre arbítrio criado, é sempre livre em Deus e depende de Sua vontade livre, pela qual Ele decide criar esse livre arbítrio em uma ou outra situação.
11. Alguém pode perguntar se essa ciência média pode ser atribuída a algum santo ou, pelo menos, à alma santíssima de Cristo, de modo que, assim como Deus, em sua natureza divina, vê o que acontecerá livremente por meio do livre-arbítrio criado, supondo que ele seja criado em uma ordem específica de coisas, da mesma forma, aquela alma santíssima veria, por meio da visão da essência divina e da ciência beatífica, o que aconteceria por meio do livre-arbítrio, especialmente do homem já criado por Deus.
É importante destacar que nem mesmo a alma de Cristo pode ser considerada como possuidora de tal conhecimento. Isso ocorre porque a alma de Cristo não compreende a essência divina. No entanto, figuras como São Jerônimo e Santo Agostinho, entre outros Padres da Igreja, atribuem esse conhecimento a Deus em relação às coisas criadas. Isso se deve ao fato de que Deus existe e, por isso, de Sua posição suprema, Ele compreende plenamente qualquer livre-arbítrio criado. Para saber em que direção algo dotado de liberdade irá se inclinar, não basta apenas compreender essa coisa, nem mesmo uma compreensão maior do que a coisa em si. É necessária uma compreensão extremamente elevada e eminente, que, em relação às criaturas, só pode ser encontrada em Deus.
Por isso, não aceitamos que Deus, por meio de uma ciência natural ou média — que neste caso negamos —, possa ver, antes de decidir sua própria vontade, para qual direção Ele mesmo se inclinará. Isso porque o entendimento divino não ultrapassa sua essência e sua vontade com a mesma grandeza e excelência com que supera — e muito mais — as essências e vontades das criaturas. Assim como o ser humano e os anjos não sabem, antes de decidirem livremente suas vontades, para qual direção se inclinarão, porque seus entendimentos não transcendem infinitamente suas próprias essências e vontades, da mesma forma, Deus não conhece, antes de determinar sua vontade, para qual direção ela se inclinará.
É difícil compreender como a liberdade de Deus permaneceria intacta se Ele já soubesse, antes de decidir, para qual direção Sua vontade se inclinaria. Se esse conhecimento prévio existisse, a vontade de Deus não poderia, em nenhuma situação, escolher o contrário. Portanto, se antes de tomar uma decisão, Deus já soubesse para onde Sua vontade se inclinaria, não vejo como Ele teria a liberdade de escolher o oposto.
12. Para facilitar a compreensão, é importante notar que há uma grande diferença entre um ser superior saber, por meio de ciência média, o que outro ser escolherá livremente, e um ser saber, por ciência média, o que ele mesmo escolherá livremente. Quando um ser que compreende infinitamente outro sabe, de maneira natural e não livre, o que esse outro escolheria em sua liberdade, isso não prejudica a liberdade do segundo ser. No entanto, é difícil entender como um ser pode saber, de maneira natural e não livre, o que ele mesmo escolherá antes de realmente fazer essa escolha, sem que isso prejudique sua liberdade. Se ele soubesse de maneira natural o que escolheria, não teria a possibilidade de escolher o contrário, o que seria contraditório e prejudicial à sua liberdade. Essa contradição será mais claramente demonstrada na próxima discussão.
Não se pode argumentar que Cristo, por meio de sua ciência beatífica, sabia com certeza como seu livre-arbítrio se inclinaria, sem que isso prejudicasse sua liberdade. Isso não pode ser usado como objeção, porque a alma santíssima de Cristo não recebeu esse conhecimento de si mesma como homem, mas da Trindade como um todo. Além disso, a divindade revelou à humanidade o que Cristo escolheria livremente como homem, e isso não anula sua liberdade, assim como a liberdade de Pedro não foi anulada quando Cristo revelou seu pecado futuro. Nesse caso, uma natureza superior conhecer e revelar algo sobre outra natureza, devido à sua eminência, é semelhante a alguém prever e revelar algo sobre outra pessoa. Além disso, o que afirmamos — motivados pela necessidade de proteger a liberdade do arbítrio humano, que experimentamos e que, segundo as Escrituras, é tão certa quanto a presciência divina — não deve ser aplicado a outros contextos sem uma razão extremamente convincente, que, no momento, não se apresenta.
13. Aqui tambem devemos notar que ha uma diferenca entre dizer que Deus nao sabe, pela ciencia que precede o ato livre de sua vontade, como Ele decidiria livremente, embora Ele saiba, por meio dessa mesma ciencia, como qualquer vontade livre criada decidiria, supondo que fosse colocada em uma das infinitas ordens de coisas ou circunstancias possiveis; e dizer que Deus nao sabe como Sua vontade livre teria se decidido, em qualquer situacao que nao aconteceu, mas poderia ter acontecido, como, por exemplo, se Ele tivesse escolhido que a encarnacao do Verbo assumisse uma humanidade sem sofrimento, supondo que Adao nao tivesse pecado.
No entanto, nunca afirmei o segundo ponto, nem nesta discussão nem em qualquer outro lugar. Pelo contrário, minha doutrina leva à conclusão oposta. Embora Deus, por meio do conhecimento que precede Sua decisão livre, não conheça as decisões de Sua vontade que ocorreriam sob certas condições — e, portanto, não haja 'ciência média' em Deus em relação a essas decisões —, Ele as conhece por meio de uma 'ciência livre', que surge após o ato livre de Sua vontade. Esse ato livre, que é infinito, ilimitado e imutável em relação ao que Deus pode fazer, também se determina livremente em relação a todos os objetos possíveis, escolhendo um lado de uma contradição. Isso acontece não apenas quando Deus decide livremente realizar ou permitir algo, mas também quando Ele decide o que teria feito ou permitido sob condições que poderiam ter existido, mas não existiram. Esse ato divino é baseado em uma deliberação plena e ilimitada, que inclui tanto o conhecimento natural quanto a 'ciência média', e precede o ato de Sua vontade. Seria absurdo e contrário à perfeição de Deus decidir algo sem antes tê-lo deliberado, especialmente porque Deus não pode deliberar posteriormente o que não deliberou antes. Portanto, Deus conhece, por meio de Sua 'ciência livre', o que Ele decidiria em qualquer situação ou sob qualquer condição que poderia ter existido. Por outro lado, afirmo que Deus não conhece, por meio do conhecimento que precede Sua vontade, como Ele decidiria em relação a qualquer objeto possível. No entanto, com base nesse mesmo conhecimento, e sob a hipótese de que Sua vontade se determinasse de uma maneira específica, Ele saberia o que qualquer ser criado escolheria ou faria livremente. Isso ocorre porque o entendimento e o conhecimento divino superam infinitamente o livre-arbítrio criado, compreendendo-o de maneira eminente. No entanto, esse conhecimento não supera a vontade divina nem a compreende de uma maneira que ultrapasse como ela mesma é conhecível. Portanto, não se segue que esse conhecimento seja imperfeito, pois ele compreende plenamente a vontade divina ao conhecer todas as coisas para as quais ela pode se determinar. Deus conhece todas essas coisas com precisão antes de realizar qualquer ato. Da mesma forma, não se pode considerar esse conhecimento imperfeito, pois ele não precisa ser 'ciência livre' antes da determinação da vontade divina. Assim como não consideramos imperfeita a vontade divina ou o próprio Deus por não terem realizado um ato de vontade em um determinado momento, também não podemos considerar esse conhecimento imperfeito. Em Deus, há apenas um conhecimento simples e perfeito, por meio do qual Ele conhece todas as decisões livres de Sua vontade.
Também não é correta a seguinte conclusão: Por meio deste conhecimento, entendido de forma precisa, Deus não conhece as decisões livres de sua vontade; ou então: Deus não conhece a decisão livre de sua vontade antes de decidir livremente; portanto, Deus não conhece essas mesmas decisões de sua vontade. Pois, como dissemos, Ele as conhece pela seguinte razão: porque realiza o ato de sua vontade e o decide livremente, sendo isso algo simultâneo na realidade, mas posterior em nossa compreensão, que, no entanto, se baseia na realidade das coisas. Da mesma forma, também dizemos, em relação à nossa vontade, que no momento em que ela realiza o ato livre e se decide por um dos dois lados de uma escolha, com prioridade de natureza, ela é livre e indiferente para se decidir por um ou outro lado, mas com posterioridade de natureza, ela já está decidida e realiza um ato específico.
14. Alguns acreditam que, em relação aos eventos futuros que dependem de escolhas livres, uma parte de uma afirmação contraditória é sempre verdadeira desde a eternidade de forma determinada, e a outra parte é falsa de forma determinada. Por isso, eles afirmam que, por sua própria natureza, uma parte vai acontecer de forma determinada, e a outra não, também de forma determinada. Isso porque Deus conheceria de maneira natural, antes de qualquer ato de sua vontade, tudo o que pode ser conhecido por sua própria natureza. Assim, eles consideram que Deus, antes de qualquer ato livre de sua vontade, não apenas sabe o que vai acontecer por meio da liberdade das criaturas, em qualquer situação hipotética, mas também o que Ele mesmo vai querer livremente no futuro, de acordo com a realidade das coisas. Isso porque, de maneira semelhante, tal coisa seria verdadeira de forma determinada antes que Deus a decidisse.
15. No entanto, afirmar que os eventos futuros incertos são verdadeiros de forma determinada pela própria natureza das coisas contradiz tanto a doutrina de Aristóteles e a opinião comum dos teólogos, quanto a própria natureza dos eventos futuros incertos. Isso porque cada um desses eventos pode ou não acontecer, dependendo da natureza deles, como explicamos em nossos comentários sobre o 'De Interpretatione' (capítulo 9). Portanto, o fundamento em que esses autores se apoiam falharia e iria além da natureza dos eventos futuros incertos, que dependem da vontade livre das criaturas, para que Deus os conheça. Pelo contrário, isso se deve à perfeição infinita e ilimitada de Deus, que compreende cada uma das vontades criadas de maneira suprema e excelente, como já explicamos. Por isso, o fundamento que usamos não pode ser aplicado a Deus em relação à decisão livre de Sua vontade — que nenhum conhecimento pode superar em perfeição — e o que admitimos em Deus em relação à vontade criada — obrigados pela necessidade de uma compreensão excelente que vai além da perfeição do objeto — não deve ser aplicado em outros contextos. Assim, não devemos dizer que Deus conhecia, antes da decisão livre de Sua vontade, como ela se determinaria, mas que, nesse momento anterior, o entendimento divino apenas mostraria a Deus todas as coisas em geral, incluindo o que aconteceria por qualquer vontade criada, em qualquer hipótese e ordem de coisas. Dessa forma, com essa deliberação completa por parte do entendimento divino, a vontade de Deus decidiria e organizaria tudo conforme Sua vontade, e, sem prejudicar a liberdade da vontade criada, proveria tudo e predestinaria ou decidiria guiar com misericórdia para a felicidade eterna aqueles que Ele quisesse.
16. Alguém poderia argumentar o seguinte: Para que haja conhecimento, basta que exista uma relação entre a capacidade de conhecer e o objeto a ser conhecido, de modo que a capacidade de conhecer seja proporcional à natureza ou cognoscibilidade do objeto. Portanto, quem compreendesse uma vontade perceberia como ela se determinaria livremente. Consequentemente, Deus saberia de antemão como a vontade se determinaria livremente, e especialmente a alma de Cristo, por meio da ciência beatífica, saberia como tanto a sua vontade humana quanto as vontades dos outros homens se determinariam livremente, pois as compreenderia por meio dessa ciência com uma superioridade que ultrapassaria a própria cognoscibilidade natural dessas vontades.
17. Sobre este argumento, devemos afirmar que a premissa inicial é verdadeira quando se refere a coisas que podem ser conhecidas principalmente por sua própria natureza. No entanto, ela não é verdadeira quando se trata de coisas que, além de sua natureza, só podem ser conhecidas devido à perfeição ilimitada e à capacidade superior do sujeito que as conhece. Isso inclui, por exemplo, a decisão do livre-arbítrio antes que ela ocorra, bem como todos os eventos futuros que dependem de escolhas livres antes que aconteçam. Para conhecer essas coisas, não basta que o sujeito que conhece tenha uma capacidade adequada para entender a raiz da contingência desses eventos. É necessário um entendimento supremo e excepcional dessa raiz, algo que só Deus possui em relação ao livre-arbítrio de todas as Suas criaturas. Portanto, como os bem-aventurados não podem possuir esse conhecimento médio, afirmamos em nossos 'Commentaria in primam D. Thomae partem' (questão 12, artigo 8) e em outros textos que os bem-aventurados não podem conhecer com certeza, apenas pela visão da essência divina e pela determinação da vontade divina de ordenar o livre-arbítrio de alguém em um certo contexto, os eventos futuros que dependem desse livre-arbítrio. Por isso, acreditamos que essas coisas são reveladas aos bem-aventurados, mostrando-lhes o conhecimento que Deus tem delas ou por algum outro meio.
18. Depois de explicar isso, consideramos que, entre todas as coisas criadas, algumas vêm diretamente de Deus, outras resultam da ação necessária das causas secundárias (sem depender do livre arbítrio criado), e outras dependem do livre arbítrio criado ou podem ser alteradas por ele. Por isso, em primeiro lugar, Deus é a causa — seja particular ou universal — de todas as coisas do primeiro e do segundo tipo, usando apenas o conhecimento natural que mencionamos antes, junto com a decisão livre de Sua vontade. Esse conhecimento natural determina como Deus produz esses efeitos, como explicamos em nossos 'Comentários sobre a Primeira Parte de São Tomás' (questão 14, artigo 8). Esse conhecimento é como a 'arte' que Deus usa para saber como criar e organizar essas coisas para que cumpram seus propósitos. No entanto, a 'arte' só age quando a vontade do artesão a coloca em prática. Assim, quando a vontade divina decide criar essas coisas, o conhecimento natural de Deus é a causa remota, e a decisão livre de Sua vontade é a causa próxima e suficiente. Embora o livre arbítrio dos anjos e dos humanos seja uma criação direta de Deus, Ele os criou de tal forma que, com Sua ajuda, eles podem alcançar tanto o fim natural quanto o sobrenatural — ou se desviar de ambos por causa de suas escolhas. Portanto, para que Deus seja a causa — às vezes universal e às vezes particular — das coisas que dependem do livre arbítrio, e para que Ele possa exercer Sua providência sobre o livre arbítrio em relação a ambos os fins (seja treinando o homem através de diferentes situações, tolerando seus erros, ou guiando-o para o bem), e para que Ele possa predestinar alguns homens ou anjos e ordenar tudo para o fim adequado, foi necessário não apenas o conhecimento natural, mas também o 'conhecimento médio'. Esse conhecimento médio permite que Deus, ao decidir criar uma certa ordem de coisas, preveja com certeza tudo o que aconteceria por causa do livre arbítrio dos anjos e dos humanos em cada uma dessas ordens. Assim, Deus é às vezes a causa universal e outras vezes a causa particular das coisas que dependem do livre arbítrio — remotamente, por meio do conhecimento natural e do conhecimento médio, e proximamente, pela decisão de Sua vontade, que colocou os homens e os anjos na ordem atual e decidiu cooperar com o livre arbítrio deles de maneiras específicas. No entanto, Deus nunca é a causa do pecado, pois a culpa e a responsabilidade pelo pecado só podem ser atribuídas ao livre arbítrio, como discutimos na disputa 32.
No entanto, o conhecimento livre pelo qual, após a decisão de sua vontade, Deus conheceu de forma absoluta e sem qualquer condição o que acontecerá em qualquer um desses três tipos de situações, não é de forma alguma a causa das coisas. Isso porque esse conhecimento surge após a decisão livre de sua vontade, que completa toda a razão da causa e do princípio de agir diretamente por parte de Deus.
19. Com base nisso, fica claro que, embora Deus não obtenha seu conhecimento das coisas, mas conheça e compreenda tudo em sua própria essência e na livre decisão de sua vontade, ainda assim, algo não acontece porque Deus sabe que vai acontecer. Pelo contrário, Deus sabe que algo vai acontecer porque isso ocorrerá por meio de suas causas.
Pois, como as coisas do primeiro tipo são produzidas exclusivamente pela vontade livre de Deus como causa imediata e total, por essa razão, uma vez que essas coisas acontecerão, Deus sabe por ciência livre — que aparece nEle após a determinação de sua vontade — e na própria determinação de sua vontade como causa, que elas acontecerão; e não ocorre o contrário, ou seja, que essas coisas vão acontecer porque Deus sabe que assim será, uma vez que essas coisas acontecerão em virtude da determinação livre da vontade divina anteriormente — segundo nosso modo de entender, baseado na realidade das coisas — a que Deus o saiba a partir dessa mesma determinação.
Além disso, as coisas do segundo tipo acontecem de tal forma que nenhuma outra causa poderia impedir esses efeitos. Isso ocorre, em parte, pela livre vontade de Deus — pela qual Ele decidiu criar diretamente as causas secundárias e cooperar com elas como causa universal — e, em parte, pela influência necessária das próprias causas secundárias. Por isso, a ciência natural de Deus, que permite que Ele preveja que essas coisas acontecerão necessariamente, já existe. Dado que Deus decidiu criar essas causas, Ele já conheceu, por meio da determinação de Sua vontade — pela qual decidiu criar essas coisas — e por meio de Sua ciência livre, que surge após essa decisão, que esses efeitos ocorrerão de forma absoluta e sem condições. Isso porque eles acontecerão por meio das causas mencionadas e não de outra forma. Ou seja, essas causas produzirão esses efeitos, pois Deus já sabia que seria assim.
Por fim, as coisas do terceiro tipo, que dependem da cooperação de outras causas secundárias e da cooperação de Deus —em parte como causa universal e em parte como causa particular—, são produzidas por meio do livre-arbítrio criado ou em dependência dele. Isso significa que poderiam não acontecer. Por isso, Deus, ao prever por meio de sua ciência natural e de sua ciência média —que está entre a ciência puramente natural e a livre— que essas coisas aconteceriam por causa da liberdade do arbítrio, considerando que Ele decidiu criar os homens e os anjos na ordem em que os colocou, soube, por meio da livre determinação de sua vontade, que decidiu criá-los assim. E, por meio de sua ciência livre —que surge após essa determinação—, Ele soube que essas coisas aconteceriam, porque ocorreriam dessa forma devido à liberdade do arbítrio, e não de outra maneira. Em outras palavras, essas coisas aconteceram ou acontecerão porque Deus previu que assim seria.
20. Todos os teólogos que mencionamos na discussão anterior concordam com o que acabamos de afirmar. Eles ensinam que, como o livre-arbítrio, por sua liberdade natural, pode escolher fazer algo ou o oposto no futuro, Deus, desde a eternidade, não pressabe outra coisa senão essa escolha. Isso significa que algo não acontece porque Deus já o sabia de antemão, mas, ao contrário, Deus sabe porque isso vai acontecer. A maioria dos teólogos escolásticos parece compartilhar essa visão, embora Santo Tomás de Aquino, em sua 'Suma Teológica' (1, q. 14, art. 8, resposta ao primeiro argumento), pareça defender o oposto. Ele tenta interpretar de maneira diferente uma citação de Orígenes, que discutiremos mais adiante, onde Orígenes claramente ensina a mesma ideia.
São Justino Mártir, em sua obra 'Questões e Respostas aos Ortodoxos' (questão 58), ao discutir a traição de Judas e a presciência de Deus, afirma: 'A presciência não é a causa do que vai acontecer, mas o que vai acontecer é a causa da presciência. O que vai acontecer não depende da presciência, mas a presciência depende do que vai acontecer. Assim, Cristo não é a causa da traição, mas a traição é a causa da presciência do Senhor.' Justino também aplica esse raciocínio à presciência do pecado dos anjos e dos primeiros pais. Ele não se refere apenas à presciência de Cristo como homem — já que essa não existia antes dos pecados dos anjos e dos primeiros pais —, mas também à presciência de Deus como Deus. No entanto, quando ele fala de 'causa', não se refere a uma causa real — pois as coisas não são a causa da presciência de Cristo, e a presciência incriada que Cristo possui como Deus não deriva das coisas em si, assim como a presciência criada dos futuros contingentes que Cristo possui como homem. Em vez disso, ele se refere à razão pela qual essa presciência existe, no sentido de que a relação entre o conhecimento divino e as coisas que Deus sabe que vão acontecer depende do fato de que essas coisas ocorrem por meio de suas causas, como já explicamos.
22. Orígenes, ao comentar as palavras 'aos que predestinou, a estes também os chamou' (In epistolam ad Romanos, livro 7), diz: 'Algo não acontece porque Deus sabe que vai acontecer, mas Deus sabe que vai acontecer porque realmente vai acontecer. Por exemplo, mesmo que Deus não tivesse previsto o futuro, Judas ainda teria se tornado um traidor, e os profetas ainda teriam predito isso. Portanto, Judas não se tornou um traidor porque os profetas o predisseram, mas os profetas predisseram sua traição porque ele escolheu trair. Judas tinha o poder de se tornar como Pedro ou João, se quisesse, mas ele escolheu o dinheiro em vez da glória de ser um apóstolo. Os profetas, prevendo sua escolha, escreveram sobre isso. Para entender que a salvação de cada um não depende da presciência de Deus, mas das escolhas e ações de cada pessoa, observe como Paulo, temendo que, mesmo pregando para outros, ele mesmo pudesse ser reprovado, disciplinou seu corpo e o submeteu à servidão.'
23. São João Damasceno, em seu 'Diálogo contra os Maniqueus', afirma: 'É claro que a presciência não foi a razão pela qual o diabo se tornou mau. Isso pode ser entendido com um exemplo: um médico, ao prever uma doença, não é a causa dela. A causa da doença está em um estilo de vida desregulado e desviado. No entanto, a capacidade do médico de prever a doença mostra sua habilidade. A causa de sua presciência é simplesmente o fato de que isso acontecerá.'
24. São João Crisóstomo (Comentário sobre Mateus, homilia 60) — ao comentar as palavras de Mateus 18:7: 'Ai do mundo por causa dos escândalos!' — afirma: 'Os escândalos não ocorrem porque foram preditos, mas foram preditos porque iriam acontecer. Eles não aconteceriam se pessoas más e perversas não os causassem; e não teriam sido preditos se não fossem ocorrer. No entanto, os escândalos aconteceram porque muitos, estando gravemente doentes espiritualmente, se recusaram a abandonar seus maus caminhos. Por isso, foi predito que isso aconteceria. Alguém poderia perguntar: se essas pessoas tivessem se arrependido e não houvesse ninguém para causar escândalos, as palavras de Jesus seriam falsas? Certamente, se todos tivessem escolhido se curar e se corrigir, Ele não teria dito: 'É necessário que venham escândalos.' Mas, como Ele sabia que muitos, por sua própria vontade, não se curariam, predisse que esses eventos ocorreriam.'
25. São Jerônimo, ao comentar as palavras de Isaías 16:13, 'Esta é a palavra que o Senhor pronunciou sobre Moabe', afirma: 'A presciência de Deus não foi a causa da queda, mas a majestade de Deus previu a queda futura'. Ao comentar o início do capítulo 26 de Jeremias, ele diz: 'Algo não acontece porque Deus o saiba, mas Deus o sabe porque vai acontecer, pois Ele tem presciência dos futuros'. Da mesma forma, ao comentar Ezequiel 2:4, 'Dize-lhes...', ele declara: 'Não porque Ele saiba que algo acontecerá, faremos necessariamente o que Ele previu, mas Ele sabe que, por nossa própria vontade, acontecerá o que vamos fazer, porque Ele é Deus'. No 'Diálogo contra os Pelagianos' (livro 3), ele afirma: 'Adão não pecou porque Deus soubesse que assim aconteceria, mas Deus previu o que ele faria por sua própria vontade'.
26. Santo Agostinho, em 'A Cidade de Deus' (livro 5, capítulo 10), afirma: 'O homem não peca porque Deus previu que ele pecaria. Na verdade, quando ele peca, ele não hesita em fazê-lo, porque Aquele cuja previsão é infalível já sabia que não seria o destino, a sorte ou qualquer outra coisa, mas ele mesmo quem escolheria pecar. Se ele não quisesse pecar, de forma alguma pecaria; mas se ele não quisesse pecar, Deus também saberia disso'. No livro 'Sobre a Predestinação e a Graça' (capítulo 15), o autor desta obra diz: 'Se alguém argumenta que o faraó não poderia mudar porque Deus previu que ele não mudaria, a resposta é que a previsão de Deus não força o homem a agir como Deus previu. Em vez disso, Deus prevê o futuro como ele realmente acontecerá, mesmo que Ele não tenha determinado que fosse assim'.
27. São Cirilo (Comentário sobre João, livro 9, capítulo 10) afirma: 'Como algumas pessoas agiriam por sua própria vontade, o Espírito Santo, por meio de sua presciência, previu que isso aconteceria.'
28. São Leão I Magno (Sermão 67, capítulo 2) afirma: 'O Senhor não ordenou que as mãos ímpias dos insensatos se voltassem contra Ele, mas permitiu que isso acontecesse; tampouco fez com que isso ocorresse simplesmente porque previu que assim seria.'
29. Com base em tudo o que discutimos, tanto nesta seção quanto nas anteriores, acredito que fica claro como a liberdade da nossa vontade e a natureza contingente das coisas se harmonizam com a presciência divina.
As ações que dependem do livre-arbítrio humano não ocorrem porque Deus as prevê, mas Deus as prevê porque elas ocorrerão conforme a liberdade do arbítrio. Se acontecessem de forma diferente, Ele também as conheceria dessa maneira desde a eternidade. A presciência divina não causa os eventos, mas, uma vez estabelecida a ordem do mundo pela vontade divina, os efeitos surgem de suas causas: as naturais agem naturalmente, e as livres agem livremente e de modo contingente. Assim, Deus sabe com certeza o que cada ser fará em qualquer circunstância, mas isso não compromete a liberdade do arbítrio.
Santo Agostinho, em seu diálogo com Evódio (*De libero arbitrio*, Livro 3, capítulo 4), explica essa relação. Evódio questiona como conciliar a presciência divina com o livre-arbítrio, já que aquilo que Deus prevê deve necessariamente acontecer. Agostinho responde que a presciência de Deus não impõe necessidade às ações humanas, pois Ele apenas prevê o que os seres humanos escolherão livremente. Da mesma forma que um ser humano pode prever com certeza o pecado de outro sem forçá-lo a pecar, Deus conhece todas as ações humanas sem determinar sua ocorrência.
Além disso, assim como a memória humana não causa os eventos passados, a presciência divina não força os eventos futuros. Deus prevê todas as ações, mas não é o autor de todas elas. Assim, Ele julga com justiça, pois não impõe o pecado a ninguém, mas pune aqueles que escolhem livremente o mal e recompensa os que fazem o bem. Sua presciência não interfere na liberdade humana, mas garante que nada do futuro esteja oculto a Ele e que seu julgamento seja justo.
30. Com base em tudo o que discutimos até agora, é importante destacar que, embora os teólogos estejam corretos ao afirmar que, considerando a presciência de que Pedro pecará amanhã, em um sentido dividido — mas não em um sentido composto — Pedro poderia não pecar, é crucial evitar dois erros extremos relacionados a esses dois sentidos.
O primeiro erro diz respeito ao chamado 'sentido dividido', que já refutamos anteriormente. Não devemos pensar que podemos evitar o pecado de forma independente, como se, independentemente do que Pedro fizer no futuro, Deus também agisse de maneira indiferente, sem ter conhecido desde a eternidade algo diferente. Esse erro destruiria a certeza e a determinação do conhecimento divino sobre eventos futuros antes que eles acontecessem, o que seria completamente contrário à perfeição do conhecimento de Deus e levaria a grandes absurdos, como já explicamos antes. Portanto, devemos reconhecer que, desde a eternidade, há uma base sólida: 'Deus conhece os que são seus'.
O segundo erro diz respeito ao 'sentido composto'. Devemos evitá-lo para não afirmar que, por causa da presciência divina, Pedro não pode evitar o pecado, como se ele tivesse perdido sua liberdade e capacidade de não pecar, se assim escolhesse. Considero esse entendimento como um erro em questões de fé. Na realidade, mesmo com a presciência divina, Pedro tem o poder de não pecar. Ele pode, de fato, evitar o ato que o tornou objeto da presciência divina como um futuro pecador, como se essa presciência não existisse, conforme já expliquei. Por isso, o 'sentido composto' não reflete o pensamento dos teólogos. Eles afirmam corretamente que, com a presciência divina, Pedro não pode evitar o pecado no 'sentido composto', porque é impossível conciliar duas coisas ao mesmo tempo: que Pedro não peque e que Deus saiba que ele vai pecar. No entanto, se Pedro escolhesse não pecar, como ele realmente tem o poder de fazer, Deus não teria essa presciência. Assim, sem que a presciência divina seja um impedimento — pois, se Pedro não pecasse, como está em seu poder, essa presciência não existiria —, ele poderia não pecar no 'sentido dividido', como se a presciência divina não existisse.
31. Sobre o primeiro argumento: Primeiro, devemos afirmar que a premissa principal é verdadeira se se refere a uma causa total em sentido absoluto — mas não é verdadeira se se refere a uma causa total em algum grau causal, como universal, conforme explicamos na disputa 26 — ou se se refere a uma causa necessária que não apenas existe necessariamente, mas também age necessariamente, pois de tal causa resulta um efeito necessário. Quanto à primeira parte da premissa menor, se ela se refere ao conhecimento livre de Deus, pelo qual Ele conhece os futuros contingentes de maneira absoluta e sem hipóteses, devemos negar que esse conhecimento seja a causa dos futuros contingentes, como já explicamos em nossos comentários a este artigo e ao artigo 8. Porém, se a premissa menor se refere ao conhecimento de Deus, tanto o natural quanto o médio — pelo qual, antes de qualquer ato livre de Deus, Ele conhece os futuros contingentes, não como futuros absolutos, mas como futuros que dependem da hipótese de que Deus queira estabelecer uma determinada ordem das coisas, com certas criaturas dotadas de livre-arbítrio —, então devemos admitir que esse conhecimento seria uma causa dos futuros contingentes, mas não uma causa total, pois, em relação aos futuros contingentes que dependem do livre-arbítrio criado, o próprio livre-arbítrio seria parte de uma causa total, da qual dependeria não apenas se esses futuros aconteceriam ou não, mas também a ordem em que ocorreriam. Quanto à segunda parte da premissa menor, devemos dizer o seguinte: Embora esse conhecimento, uma vez concebido, seja necessário — seja considerado natural a Deus ou sujeito a variação em Deus, caso o livre-arbítrio, por sua liberdade, se inclinasse em sentido oposto, como está em seu poder —, ele não produz necessariamente os futuros contingentes, mas depende da determinação livre da vontade divina e da escolha livre do arbítrio criado, pelo qual este abraçará um dos lados de uma contradição antes do outro. Assim, da determinação livre dessas partes de uma única causa total podem surgir efeitos contingentes, sem que isso implique qualquer impedimento à necessidade do conhecimento mencionado, como ensina Santo Tomás.
32. Sobre o segundo argumento: É importante entender que uma afirmação que, considerando a natureza de seus elementos e suas causas — ou seja, o princípio que conecta o sujeito ao predicado —, é inicialmente contingente, pode se tornar absolutamente necessária devido a uma condição específica. No entanto, essa necessidade não surge apenas ao imaginar ou supor que a condição existe, mas sim ao reconhecer que ela já existe de fato, de modo que sua remoção seria contraditória. Por exemplo, embora algumas condições criem uma necessidade relativa ou hipotética (como dizer que, se um cavalo voasse, ele teria asas, ou que tudo o que existe, por existir, existe necessariamente), outras condições geram uma necessidade absoluta. Assim, embora a existência de Adão fosse originalmente contingente, pois Deus o criou livremente, hoje sua existência passada é necessária, pois seria contraditório afirmar que ele nunca existiu, já que sua existência não pode ser apagada. Da mesma forma, embora a presciência de Deus sobre o pecado do Anticristo fosse contingente (pois, se o Anticristo não tivesse escolhido pecar, Deus não teria previsto isso), agora é absolutamente necessário que Deus tenha previsto esse pecado, pois o passado não pode ser alterado e Deus não muda. Santo Tomás se refere a essa necessidade absoluta ao afirmar que certas proposições sobre o passado são absolutamente necessárias.
33. Além disso, é importante entender que - como podemos deduzir do que já foi dito - o conhecimento divino sobre eventos contingentes, que dependem da vontade livre das criaturas, tem uma característica única. Devido à sua perspicácia e à perfeição suprema de seu entendimento, Deus prevê o que acontecerá porque a própria vontade livre, em sua liberdade, agirá de determinada maneira. E se o oposto acontecesse - o que é possível -, Deus também saberia disso. Por isso, Deus conhece com certeza algo que, em si mesmo, é incerto. Essa certeza não vem do objeto em si, mas da perspicácia e da perfeição suprema do entendimento divino, embora dependa de que a vontade livre aja de determinada forma.
34. Uma vez estabelecido isso, devemos negar a premissa principal do argumento, porque o antecedente é absolutamente necessário apenas devido à necessidade que acabamos de mencionar. O conhecimento formado depende de que algo aconteça de forma livre ou contingente. Se o oposto fosse possível, o conhecimento teria que ser diferente, pois ele não é certo por causa do objeto, mas sim pela perfeição e agudeza do sujeito que conhece. Embora a proposição condicional seja necessária — porque é impossível conciliar duas coisas: que Deus preveja algo e que isso não aconteça como Ele previu — e embora o antecedente também seja necessário (pois nem o passado nem Deus podem mudar), o consequente pode ser puramente contingente. Quanto à demonstração da premissa principal, que sugere que, em uma consequência correta, o antecedente poderia ser verdadeiro e o consequente falso, devemos negar isso. Se o oposto do consequente acontecesse, o antecedente nunca teria existido, pois ele foi conhecido pela perfeição do entendimento divino. Portanto, o antecedente nunca seria verdadeiro e o consequente falso. Assim, dado o antecedente, o consequente só é necessário por necessidade de consequência — ou seja, pode ser inferido dele —, mas não por necessidade do consequente em si. A condição mencionada não torna o consequente absolutamente necessário, como faz com o antecedente, pois o consequente pode ser verdadeiro ou não. No entanto, se não fosse verdadeiro (o que é possível), o antecedente nunca o precederia, e essa condição, que vem da perfeição divina, não se aplicaria.
35. Sobre o terceiro argumento: A premissa principal deve ser aceita no sentido de que é necessária a seguinte conclusão: se Deus sabe que algo vai acontecer, então isso realmente acontecerá. No entanto, essa premissa não deve ser entendida como se a coisa que Deus sabe que vai acontecer fosse, por si mesma, necessária ou certa. Se interpretarmos a demonstração como se tudo o que os humanos sabem fosse necessário ou certo por si mesmo — usando 'saber' em um sentido amplo, incluindo o conhecimento baseado na experiência sensorial sobre eventos contingentes —, então teríamos que negar essa conclusão. Isso porque o conhecimento humano depende da certeza ou necessidade dos objetos em si, e nossa certeza não pode ser maior do que a dos próprios objetos. Já o conhecimento divino, devido à superioridade e perfeição de Deus, é capaz de ver com certeza o que vai acontecer, mesmo que o objeto em si seja incerto. Por isso, apenas Deus pode ter conhecimento dos futuros contingentes, como discutimos em nossos Comentários sobre a primeira parte de Tomás de Aquino (questão 1). Portanto, o fato de o conhecimento de Deus ser mais certo que o nosso apoia nossa posição. Isso mostra que não podemos dizer que, assim como nosso conhecimento só se aplica a objetos já certos, o conhecimento de Deus também se limita a objetos desse tipo. Deus, em Sua sabedoria infinita, conhece com certeza até mesmo os futuros contingentes, que são incertos por natureza. O profeta real, ao receber revelações divinas, disse: 'Tu me revelaste as incertezas e os segredos da Tua sabedoria'. Aqui, 'incertezas' se refere à natureza das revelações, enquanto 'Tua sabedoria' aponta para o conhecimento infalível de Deus, que transcende a incerteza dos eventos. Embora o texto hebraico use apenas uma palavra que significa 'segredo' ou 'escondido', entendemos que ela abrange tanto o que é incerto quanto o que não é. Essa interpretação é confirmada pela tradução dos Setenta e pelo texto da Vulgata, reforçando a verdade da doutrina que apresentei.
36. Sobre o quarto argumento: Se interpretarmos o antecedente de forma composta ─ou seja, que nenhum futuro conhecido por Deus pode deixar de acontecer─, ao aceitar esse antecedente, devemos negar a consequência. Quanto à demonstração, devemos afirmar que, para que algo seja verdadeiramente um futuro contingente, basta que, em sentido dividido, possa acontecer ou não acontecer. Se não fosse acontecer, como é possível na realidade sem que a presciência divina o impeça, essa presciência não existiria, pois não poderia coexistir com o fato de que esse futuro não acontecesse. Mas se interpretarmos o antecedente em sentido dividido, devemos negá-lo. Por outro lado, em relação à seguinte demonstração: Se algo que Deus previu que aconteceria não acontecesse, então Deus estaria enganado; portanto, se, apesar dessa presciência, tal futuro pudesse não acontecer, então Deus poderia estar enganado. Em primeiro lugar, devemos dizer que, se tomarmos o antecedente e o consequente em sentido composto, teremos de aceitar essa demonstração, pois ela não serve para demonstrar o antecedente em sentido dividido; além disso, também não afirmamos que, existindo essa presciência, tal coisa possa não acontecer em sentido composto. Mas, como sustentamos que uma presciência em ato não pode impedir que outra coisa possa acontecer ─dessa forma, sem que essa presciência sirva de impedimento, tal coisa poderia não acontecer em sentido dividido, porque se não acontecesse, como é possível na realidade, essa presciência nunca teria existido─, ao aceitar o antecedente dessa demonstração, teremos que negar a consequência, porque não há contradição enganosa entre algo poder não acontecer em ato e esse algo acontecer como foi previsto, pois se não fosse acontecer como previsto, como é possível na realidade, Deus nunca teria previsto que aconteceria. Portanto, que tal coisa aconteça de outro modo não pode coexistir com a presciência divina, embora com ela se possa conciliar muito bem o fato de que, em termos absolutos, tal coisa poderia acontecer de outro modo; no entanto, se assim acontecesse, não existiria essa presciência, que não impõe às coisas futuras nenhuma necessidade ─nem certeza─ de consequência, mas as deixa tão incertas por si mesmas e em relação às suas causas como se não houvesse havido nenhuma presciência.
37. Sobre o quinto argumento: Devemos rejeitar a premissa principal. A razão para isso já foi explicada em nossa resposta ao terceiro argumento. Como nosso conhecimento e ciência não têm mais certeza do que o próprio objeto que estamos considerando, se tivéssemos certeza absoluta sobre eventos futuros incertos e as afirmações que fazemos sobre eles fossem verdadeiras de forma definitiva, isso significaria que esses eventos futuros aconteceriam de maneira inevitável por sua própria natureza. No entanto, o conhecimento divino, devido à perfeição e à clareza de Deus, tem certeza total mesmo sobre eventos futuros incertos, que, por si mesmos e por suas causas, não têm certeza alguma, como já explicamos várias vezes. Portanto, o fato de Deus conhecer com certeza os eventos futuros incertos não significa que eles acontecerão necessariamente por sua própria natureza, como seria o caso se nosso conhecimento sobre eles fosse certo ou se nossas afirmações sobre eles fossem verdadeiras de forma definitiva.
38. Sobre o sexto argumento: Devemos rejeitar sua premissa inicial. Quanto à explicação, se aceitarmos a primeira parte, a conclusão será necessariamente correta: Deus previu desde a eternidade que Pedro pecará amanhã; portanto, Pedro pecará amanhã. Se entendermos a segunda parte como significando que, para alguém que não tem o poder de evitar o que a premissa inicial afirma, também não terá o poder de evitar o que a conclusão afirma (ou seja, não realizar o que a conclusão diz que deve acontecer), então devemos rejeitar essa segunda parte. Isso porque, se fosse possível que o que a conclusão afirma não acontecesse, Deus nunca teria previsto que Pedro pecaria, e a premissa inicial não seria verdadeira. Assim, embora nem Pedro nem Deus possam mudar o fato de que Deus tem essa presciência, Pedro ainda tem o poder de não pecar. E se ele escolhesse não pecar, como está em seu poder, a premissa inicial nunca teria sido formulada. Portanto, o poder de Pedro de não pecar não implica que, em uma conclusão correta, a premissa inicial possa ser verdadeira e a conclusão falsa, porque se Pedro não pecasse, como está em seu poder, essa premissa inicial nunca teria sido formulada.
39. Com base em tudo o que foi discutido até agora, acredito que fica bastante claro que a liberdade de nossa vontade e a natureza imprevisível das coisas podem ser harmonizadas com a presciência divina. Além disso, essa presciência não é, de forma alguma, a razão pela qual, mesmo com a ajuda de Deus — que sempre oferece o auxílio necessário a cada um —, não esteja em nosso poder evitar todos os pecados graves, nos reerguer após cairmos neles ou, finalmente, alcançar ou perder a vida eterna. Se não a alcançarmos, a culpa será nossa, exatamente como se Deus não tivesse conhecimento prévio do futuro.
Por isso, como Deus prevê nossa salvação ou condenação da mesma forma que prevê outros eventos futuros incertos, e como a presciência divina não torna a salvação mais necessária do que qualquer outro evento, devemos entender que seria absurdo agir de forma negligente por causa dessa presciência. Imagine um agricultor que, sabendo que Deus já previu tudo, decidisse não semear ou semear menos, pensando que o resultado já está determinado. Isso seria tolice, pois a colheita depende diretamente do esforço do agricultor. Se ele não semear, não colherá nada, e a culpa será dele, não da presciência divina. Da mesma forma, seria ainda mais insensato alguém, sabendo que Deus prevê suas ações, tornar-se preguiçoso em sua busca por santidade e salvação. Essa pessoa não pode culpar a presciência ou a predestinação divina por seu fracasso, mas apenas a si mesma. Afinal, enquanto o agricultor pode perder sua colheita por fatores externos, como o clima, a pessoa que busca a salvação só pode falhar por sua própria escolha, mesmo sabendo que Deus está sempre disposto a abençoá-la conforme seu esforço e dedicação.
O exemplo do agricultor pode ser comparado ao de um doente que, confiando na presciência divina sobre o futuro, se recusa a tomar remédios; ou ao de um soldado que, pela mesma razão, vai para a batalha sem armas. Esses exemplos se aplicam a muitas outras situações semelhantes.
Portanto, sem nos preocuparmos excessivamente com a presciência divina, devemos buscar garantir nossa vocação e eleição, seguindo o conselho de São Pedro. Assim como o diabo — que sabe muito melhor do que nós que Deus prevê todas as coisas —, sem se importar com a presciência divina, não descansa, move-se por toda a Terra e age com astúcia, procurando a quem devorar, nós também, livres de qualquer ansiedade sobre a presciência divina e confiando na ajuda de Deus, devemos trabalhar diligentemente pela nossa salvação. Sem dúvida, dessa forma alcançaremos a felicidade eterna. Basta que cada um reconheça que Deus é Deus — ou seja, sabedoria, bondade e infinito em todos os aspectos —, de modo que, em questões que vão além da compreensão humana, confiemos plenamente na bondade e na providência divinas. Ao mesmo tempo, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, com máxima dedicação e com a ajuda de Deus, para cumprir nossa parte.