Diálogo de Justino Mártir com Trifão 95
O crucificado não é maldito
Com efeito, todo gênero humano perceberá que está sob maldição. Segundo a lei de Moisés, chama-se maldito todo aquele que não persevera no cumprimento do que está escrito na lei. E que ninguém a tenha cumprido exatamente, nem vós mesmos vos atreveis a contradizer. Uns guardaram mais os seus mandamentos e outros menos. Se os que estão submissos a essa lei carregam maldição por não tê-la observado inteiramente, quanto mais não a carregam todas as nações entregues à idolatria, à corrupção dos jovens e a outros males que praticam?
Portanto, se foi da vontade do Pai do universo que seu Cristo carregasse por amor o gênero humano com a maldição de todos, sabendo que o ressuscitaria depois de crucificado e morto, por que falais como de um maldito daquele que se dignou sofrer tudo isso pelo desígnio do Pai? Valeria mais que chorásseis a vós mesmos. De fato, é certo que foi o seu próprio Pai quem o fez sofrer tudo o que ele sofreu por causa do gênero humano, mas vós não agistes para cumprir um desígnio de Deus, assim como ao matar os profetas não realizastes uma obra de piedade.
E que ninguém de vós diga: “Se o Pai quis que o Cristo sofresse para que, por meio de suas chagas, viesse a cura para o gênero humano, nós não cometemos nenhum pecado.” Porque se dissésseis isso, arrependendo-vos dos vossos pecados, reconhecendo que Jesus é o Cristo e observando os seus mandamentos, vossos pecados vos seriam perdoados, como eu já disse antes;
todavia, se maldizeis não somente a ele, mas também aos que nele crêem, e tirais a vida destes porque tendes poder pa- ra isso, como ele não requererá de vós ter posto sobre ele vossas mãos, como homens criminosos e pecado- res, levando ao extremo vossa dureza de coração e insensatez?