Diálogo de Justino Mártir com Trifão 93
Em que consiste a justiça
Com efeito, Deus proporciona ao gênero humano o que sempre e absolutamente é justo. Proporciona-lhe toda a justiça, e assim todos reconhecem que são maus o adultério, a fornicação, o assassínio e coisas semelhantes, ainda que todos cometam esses crimes. Todavia, quando os cometem, ao menos não podem deixar de reconhecer que estão cometendo uma iniquidade, caso excetuemos aquelas pessoas que, cheias de espírito impuro e corrompidas pela educação, costumes e leis perversas, perderam as noções naturais ou antes as apagaram e reprimiram.
A prova está em que mesmo essas pessoas não querem sofrer a mesma coisa que elas fazem às outras e, em toda a sua má consciência, reprovam em si umas às outras aquilo que cada uma faz. Daí, parece-me que disse bem nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, quando afirmou que toda justiça e piedade se resume em dois mandamentos, que são: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua força, e ao teu próximo como a ti mesmo”. Com efeito, quem ama a Deus com todo o seu coração e com toda a sua força, estando cheio de sentimento religioso, não honrará a nenhum outro deus, embora pela vontade de Deus honre aquele Anjo que é amado pelo próprio Senhor e Deus. Aquele que ama ao seu próximo como a si mesmo, desejará para ele os mesmos bens que deseja para si próprio, porque ninguém desejará males para si mesmo.
Portanto, aquele que ama ao seu próximo pedirá em sua oração e fará por seu próximo o mesmo que faz para si; e o próximo do homem não é mais do que o animal racional, submetido às mesmas paixões, que é o homem. Visto, portanto, que a justiça se divide em duas partes, em relação a Deus e em relação aos homens, todo aquele que, segundo a palavra, ama ao Senhor Deus de todo coração e com toda a sua força e ao seu próximo como a si mesmo, pode verdadeiramente considerar-se justo.
Vós, porém, jamais demonstrastes ter amizade ou amor nem para com Deus, nem para com os profetas, nem uns para com os outros, mas em todo tempo, como está provado, fostes idólatras e assassinos dos justos, até ao ponto de pôr vossas mãos sobre o próprio Cristo. E ainda agora vos obstinais na vossa maldade, amaldiçoando aqueles que demonstram que esse mesmo que foi crucificado por vós é o Cristo. Não contentes com isso, pretendeis demonstrar que foi crucificado como inimigo de Deus e amaldiçoado por ele, quando a crucifixão foi obra de vossa insensatez.
Com efeito, através dos sinais feitos por Moisés, tendes motivos para compreender que Jesus é o Cristo, mas vós não quereis entender; ao contrário, pensando que nós também somos insensatos, nos propondes questões que vos vêm à cabeça, quando sois vós que ficais sem palavras ao encontrar um cristão instruído.