Diálogo de Justino Mártir com Trifão 78

Relato da história dos “Reis Magos”

Com efeito, esse rei Herodes informou-se com os anciãos de vosso povo. Os magos tinham então chegado da Arábia, dizendo terem visto aparecer uma estrela no céu e terem conhecido, por ela ter nascido em vossa terra, um rei, a quem eles vinham adorar. Os anciãos disseram que ele devia ter nascido em Belém, porque no profeta assim está escrito: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá o chefe que apascentará o meu povo ”.
Portanto, os magos da Arábia chegaram a Belém, adoraram o menino e lhe ofereceram seus dons de ouro, incenso e mirra. Contudo, depois de adorar o menino em Belém, receberam ordem, através de uma revelação, para não voltarem a Herodes.
José, o esposo de Maria, queria antes expulsar de casa a sua esposa, acreditando que ela estava grávida por alguma relação com um homem, isto é, por adultério. Todavia, por meio de uma visão, foi-lhe ordenado não expulsar a sua esposa; o anjo que lhe apareceu lhe explicou que o que ela levava em seu seio era obra do Espírito Santo.
Temeroso, José não a expulsou de casa. Ao contrário, na ocasião do primeiro recenseamento da Judéia, no tempo de Quirino, subiu de Nazaré, onde vivia, para inscrever-se em Belém, sua terra de origem. Com efeito, José procedia por descendência da tribo de Judá, que havia povoado essa terra. Ele, juntamente com Maria, recebe a ordem de partir para o Egito e permanecer com o menino, até que novamente lhe seja revelado que podem voltar para a Judéia.
Antes, porém, quando o menino nasceu em Belém, como José não encontrasse onde alojar-se nessa aldeia, retirou-se para uma gruta próxima. Então, estando os dois, Maria deu à luz a Cristo e o colocou num presépio, onde os magos da Arábia o encontraram ao chegar.
vos citei as palavras com que Isaías profetizou sobre o símbolo da gruta. Por causa dos que vieram hoje convosco, vou recordá-las novamente.
Citei de novo a passagem de Isaías, anteriormente transcrita, repetindo- lhes que, justamente com essas palavras de Isaías, o diabo fez com que os mestres das iniciações de Mitra digam que as praticam no lugar que eles chamam de gruta.
Eu continuei:
Como os magos da Arábia não voltassem para vê-lo, conforme ele havia pedido, mas, seguindo a ordem que lhes fora dada, voltassem ao seu país por outro caminho; como José, juntamente com Maria e o menino, conforme também lhes fora revelado, houvessem partido para o Egito; não conhecendo o menino que os magos tinham vindo adorar, Herodes mandou matar, sem exceção, todos os meninos de Belém.
E isso foi profetizado por Jeremias, pois assim diz o Espírito Santo por meio dele: “Uma voz se ouviu em Ramá, pranto e muito lamento. Raquel chora seus filhos e não quer consolar-se, porque não existem”. Portanto, pela voz que deveria ouvir-se desde Ramá, isto é, desde a Arábia, pois até agora se conserva na Arábia um lugar chamado Ramá, o pranto deveria encher o lugar onde está enterrada Raquel, a mulher do santo patriarca Jacó, que foi chamado Israel; isto é: o pranto encheria Belém, com as mulheres chorando seus próprios filhos assassinados e não aceitando consolo em sua desgraça.
Ademais, quando Isaías diz: “Tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria”, ele quis dizer que logo que Cristo nascesse, seria vencido por ele o poder do demônio mau, que mora em Damasco, coisa que vemos ter-se cumprido. De fato, os magos que antes tinham sido presa do demônio para a realização de todo tipo de más ações realizadas por influência dele, depois de irem e adorarem a Cristo, se afastaram daquele poder que os havia combatido, o qual misteriosamente a palavra nos diz que morava em Damasco.
E por ser pecador e iníquo, com razão a palavra chama aquele poder de “Samaria”. Que Damasco pertenceu e pertence à Arábia, ainda que atualmente esteja circunscrita à chamada Siro-Fenícia, é coisa que nem vós podereis negar.
Amigos, concluindo tudo isso, seria bom que vós aprendêsseis o que não entendeis de nós, cristãos, que recebemos a graça de Deus, e não lutar de todos os modos para sustentar as vossas próprias doutrinas, desprezando as de Deus.
Por isso, também para nós foi transferida essa graça, como diz Isaías: “Este povo se aproxima de mim. Com seus lábios me honram, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me reverenciam, ensinando preceitos e doutrinas de homens. Por isso, eis que vou continuar transportando este povo, e o transportarei. Tirarei a sabedoria dos seus sábios e anularei a inteligência de seus inteligentes ”.