Diálogo de Justino Mártir com Trifão 67
Discussão em torno da encarnação
Trifão contestou:
— A Escritura não diz: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”, mas: “Eis que uma jovem conceberá e dará à luz um filho”. O resto segue como disseste. Toda a profecia está relacionada com Ezequias, no qual consta ter-se cumprido tudo, conforme a profecia.
Por outro lado, nos mitos dos chamados gregos conta-se que Perseu nasceu de Dânae, sendo esta virgem, pois fluiu até ela, em forma de chuva de ouro, aquele que entre eles é chamado Zeus. É vergonhoso para vós dizerdes coisas semelhantes a eles. Seria melhor dizer que esse Jesus nasceu homem dos homens e que se demonstra pela Escrituras que ele é o Cristo. Deveríeis crer que ele mereceu ser escolhido para Cristo por ter vivido de maneira perfeita conforme a lei. Contudo, não venhais com monstruosidades, a não ser que queirais provar ser tão estúpidos como os gregos.
Então eu respondi:
— Trifão, quero que tu te convenças, e todos os homens em geral, de uma coisa: mesmo quando me dirigirdes as maiores chacotas e sarcasmos, não conseguireis afastar-me do meu propósito. Ao contrário: das mesmas razões e fatos que me propondes para refutar-me, continuarei tirando, juntamente com o testemunho das Escrituras, as provas do que digo.
Certamente não ages corretamente, nem amas a verdade, ao pretender voltar atrás naquilo que já tínhamos chegado a um acordo, isto é, que alguns dos mandamentos dados por Moisés se devem à dureza de coração do vosso povo. De fato, dizes que Jesus foi escolhido e feito Cristo por causa de sua conduta conforme a lei e que isso é prova de que ele é o Cristo.
Trifão disse:
— Tu mesmo nos confessaste que ele foi até circuncidado e que guardou todas as observâncias legais instituídas por Moisés.
Eu respondi:
— Confessei e confesso. Não confessei, porém, que ele se submeteu a isso para que, por sua observância, devesse ser justificado, e sim para cumprir a economia que desejava o Pai seu e de todas as coisas, Senhor e Deus. Confesso também que ele se dignou morrer crucificado, fazer-se homem e sofrer tudo o que os de vossa descendência quiseram fazer com ele.
Contudo, Trifão, já que negas de novo admitir o que antes havias admitido, responde-me: os justos e patriarcas que viveram antes de Moisés sem ter guardado nada do que consta pela palavra que teve em Moisés seu princípio de ordenação, salvar-se-ão na herança dos bem-aventurados, ou não?
Trifão replicou:
— As Escrituras obrigam-me a concordar contigo.
Eu continuei:
— Da mesma forma, eu te pergunto novamente: quanto a vossas ofertas e sacrifícios, Deus ordenou a vossos pais que os realizassem por ter ele necessidade delas, ou por causa da dureza do coração deles e inclinação para a idolatria?
Trifão respondeu:
— As Escrituras nos obrigam a confessar também isso.
Eu continuei:
— As Escrituras também não anunciaram de antemão que Deus promete estabelecer uma aliança nova, distinta da aliança do monte Horeb?
Trifão respondeu:
— Anunciaram também isso.
Eu retomei:
— A antiga aliança não foi ordenada a vossos pais por temor e tremor, até o ponto de vossos pais não poderem ouvir a Deus?
Também com isso ele concordou.
Eu disse:
— O que se conclui então daí? Que Deus prometeu que haverá outra aliança não estabelecida como foi estabelecida a primeira, sem temor, nem tremor, nem raios. Ele disse que ela seria estabelecida e que Deus mostraria qual mandamento e obra entende como eternos e apropriados a todo o gênero humano e que é o que ele ordenou, como os profetas proclamam, atendendo à dureza de coração do vosso povo.
Trifão disse:
— Quem ama a verdade e não a disputa, forçosamente deverá admitir também isso.
Eu continuei:
— Não sei como podes acusar alguém de ser amigo de disputas, quando tu mesmo te mostrastes muitas vezes assim, contradizendo frequentemente as mesmas coisas que antes havias admitido.