Diálogo de Justino Mártir com Trifão 65

Trifão disse:
Impressionado com tantas passagens da Escritura, não sei o que me dirá sobre aquela outra passagem de Isaías, na qual Deus diz que não dará a sua glória a nenhum outro. É a seguinte: “Eu sou o Senhor Deus: este é o meu nome. Não darei a minha glória a nenhum outro, nem as minhas virtudes”.
Eu respondi:
Trifão, se te calaste com simplicidade e não com malícia, ao citar essas palavras sem dizer o que as precede, nem acrescentar o que as segue, merecerias desculpa. Todavia, se fizeste isso, pensando em colocar o meu raciocínio num beco sem saída e obrigar-me a dizer que as Escrituras se contradizem entre si, tu te enganaste. Eu jamais terei a ousadia de pensar ou dizer tal coisa. Caso me objetem com alguma Escritura que pareça contradizer outra e que pudesse dar azo a pensar isso, convencido como estou de que nenhuma pode ser contrária à outra, de minha parte prefiro confessar antes que não as entendo. E aos que pensam que elas podem contradizer-se entre si, usarei todas as minhas forças para convencê-los a pensar do mesmo modo que eu.
Com qual intenção propuseste o teu problema, Deus sabe. De minha parte, lembro-vos como se disse essa palavra e, por meio dela, podereis saber que Deus não a sua glória a ninguém mais além do seu Cristo. Amigos, tomarei algumas breves palavras que formam contexto com as que foram citadas por Trifão, e também outras que continuam num mesmo contexto. Não vou citá-las de outra passagem, mas de uma só, em seu próprio contexto. Prestai-me atenção.
São estas: “Assim diz o Senhor, o Deus que fez o céu e o fixou, que firmou a terra e tudo o que nela existe, que respiração ao povo que nela habita e espírito a todos os que pisam. Eu, o Senhor Deus, te chamei na justiça, te tomarei pela mão e te fortalecerei. Eu te dei como testamento da descendência, como luz das nações, para abrir os olhos aos cegos, para tirar de sua prisão os cativos e da casa da guarda os que se sentam nas sombras.
Eu sou o Senhor Deus. Este é o meu nome. Não darei a minha glória a outro, nem as minhas virtudes às figuras esculpidas. Eis que vem aquele que existe desde o princípio. As coisas que vos anuncio são novas e, antes de anunciá-las, elas vos foram manifestadas. Entoai a Deus um cântico novo: seu princípio desde os confins da terra. Vós que desceis ao mar e navegais; as ilhas e vós que nelas habitais.
Alegra-te, deserto, as aldeias e seus acampamentos, e os que habitam Cedar se alegrarão, e os que habitam o rochedo, desde o extremo dos montes gritarão. Darão glória a Deus, anunciarão nas ilhas as suas virtudes. O Senhor Deus dos exércitos sairá, esmagará a guerra, despertará seu ardor e gritará com força entre os inimigos”.
Terminada a citação, eu lhes disse:
Amigos, entendeis como Deus diz que dará sua glória a este, a quem o estabeleceu como luz das nações e não a nenhum outro? E não, como disse Trifão, que Deus reserva sua glória para si mesmo?
Trifão respondeu:
Também isso fica compreendido. Termina, portanto, o que resta do teu discurso.