Diálogo de Justino Mártir com Trifão 63

Este Verbo é o Cristo

Trifão disse:
Amigo, esse ponto tu demonstraste com firmeza e abundantemente. Agora demonstra o fato de que esse se dignou nascer homem de uma virgem, segundo a vontade de seu Pai, ser crucificado e morrer. Por fim, prova-nos que, depois disso, ele ressuscitou e subiu ao céu.
Eu respondi:
Isso também foi demonstrado pelas passagens por mim citadas e que, por consideração a vós, citarei e as comentarei novamente para ver se consigo que cheguemos a acordo também sobre isso.
Pelo menos a palavra de Isaías disse: “Quem contará a sua geração? Porque sua vida é arrebatada da terra” não te parece ter sido dita no sentido de que aquele que Deus falou ter sido entregue à morte pelas iniquidades do seu povo não descende de homens? E de seu sangue, como falei antes, disse Moisés, falando misteriosamente, que lavaria sua veste no sangue da uva, dando a entender que o seu sangue não viria de germe humano, mas da vontade de Deus.
E as palavras de Davi: “Nos esplendores dos teus santos, do ventre, antes do astro da manhã, eu te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” não significam para vós que, desde a antiguidade e num ventre humano, haveria de gerá-lo aquele que é Deus e Pai do universo?
Em outra passagem, também citada antes, ele diz: “Teu trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos. O cetro do teu reino é cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade. Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria mais do que aos teus companheiros. Mirra, aloés e cássia exalam das tuas vestes e das moradas de marfim, pelas quais te festejam. Em teu cortejo filhas de reis. A rainha se apresentou à tua direita, vestida com roupa recamada de ouro e de várias cores. Escuta, filha, e inclina o teu ouvido. Esquece o teu povo e a casa do teu pai, e o rei cobiçará a tua beleza. Porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás”.
Essas palavras dão a entender claramente que se deve adorar a ele, que é Deus e Cristo, testemunhado pelo Criador deste mundo. E, de modo não menos claro, nos anunciam que o Verbo de Deus fala, como se fosse com sua filha, com aqueles que nele crêem, como se fossem uma alma, uma congregação, uma Igreja a Igreja que nasce de seu nome e dele participa, pois todos nós nos chamamos cristãos —, ao mesmo tempo que nos ensinam a esquecer-nos dos nossos antigos costumes, que vieram de nossos pais, no lugar onde se diz: “Ouve, filha, e inclina o teu ouvido. Esquece o teu povo e a casa do teu pai, e o rei cobiçará a tua beleza. Porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás”.