Diálogo de Justino Mártir com Trifão 58
Jacó e Moisés encontram outro Deus que o Deus Pai
Eu lhe disse:
— Citar-vos-ei passagens das Escrituras e não pretendo oferecer-vos discursos retoricamente preparados, pois não tenho talento para tal coisa. Deus apenas me deu graça para entender as Escrituras e, sem recompensa ou inveja, convido a que todos participem dessa graça, para que eu não tenha de prestar contas disso no julgamento em que Deus, Criador do universo, nos julgará por meio do meu Senhor Jesus Cristo.
Trifão replicou:
— Também quanto a isso tu te comportas conforme a piedade. Todavia, parece que falas com ironia ao dizer que não possuis a arte dos discursos.
Eu lhe respondi novamente:
— Se assim te parece, assim seja. Todavia, creio que eu disse a verdade. Seja como for, compreendei as novas provas que vos quero dar.
Trifão respondeu:
— Apresenta-as.
Eu continuei:
— Irmãos, Moisés também escreve que este que apareceu aos patriarcas e que se chama Deus, também se chama anjo e Senhor, a fim de que por meio desses nomes percebais como ele serve ao Pai do universo, como já concordastes, e, confirmados por novas provas, o sustenteis firmemente.
Portanto, contando a palavra de Deus, por meio de Moisés, a história de Jacó, neto de Abraão, ele assim diz: “Aconteceu que, quando as ovelhas se juntavam e concebiam, eu as vi com os meus olhos em sonhos. Os bodes e os carneiros cobriam as ovelhas e as cabras, os esbranquiçados e manchados e os salpicados de cor cinzenta. E o anjo de Deus disse-me em sonhos: ‘Jacó! Jacó!’
Eu lhe respondi: ‘Que foi, Senhor?’ Ele me disse: ‘Levanta os teus olhos e olha os bodes e os carneiros que cobrem as ovelhas e as cabras, os esbranquiçados e manchados e os salpicados de cor cinzenta. Porque vi tudo o que Labão faz contigo. Eu sou o Deus que apareceu a ti no lugar de Deus, onde me ungiste uma pedra e me fizeste um voto. Agora, portanto, levanta-te, sai desta terra e vai para a terra onde nasceste, e eu estarei contigo’ ”.
Novamente, em outra passagem, falando do mesmo Jacó, ele assim diz: “Levantando-se naquela noite, Jacó tomou suas duas mulheres, as duas servas, os seus onze filhos, e atravessou o vau do Jaboc. Tomou-os, atravessou a torrente e fez passar todas as suas coisas. Jacó ficou sozinho, e um anjo lutou com ele até o amanhecer. Vendo que não conseguia vencê-lo, tocou-lhe o músculo da coxa e o músculo da coxa de Jacó ficou entorpecido, enquanto lutava com o anjo. Este lhe disse: ‘Deixa-me, pois a manhã já está chegando’.
Jacó replicou: ‘Não te soltarei até que me abençoes’. O anjo lhe perguntou: ‘Qual é o teu nome?’ Ele respondeu: ‘Jacó’. O anjo lhe disse: ‘Daqui por diante não te chamarás Jacó, mas o teu nome será Israel. Já que mediste forças com Deus, também serás poderoso com os homens’. Jacó lhe perguntou: ‘Dize-me qual é o teu nome’. Ele respondeu: ‘Para que perguntas o meu nome?’ E o abençoou. E Jacó deu àquele lugar o nome de Face de Deus. Com efeito vi Deus face a face e a minha alma se alegrou”.
Novamente, em outra passagem, falando sobre o mesmo Jacó, diz o seguinte: “Jacó chegou a Luza, que está na terra de Canaã — Luza é Betel —, e todo o povo que estava com ele. Edificou aí um altar e deu a esse lugar o nome de Betel, porque aí Deus lhe havia aparecido, quando fugia da presença de seu irmão Esaú. Então morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada na parte inferior de Betel, sob o carvalho. E Jacó lhe deu o nome de Carvalho-do-Pranto. Deus apareceu ainda a Jacó em Luza, quando voltou da Mesopotâmia da Síria, e o abençoou. Deus lhe disse: Teu nome não será mais Jacó, mas teu nome será Israel”.
É chamado Deus; é e será Deus.
Como todos consentissem com acenos de cabeça, eu prossegui:
— Porque julgo-as necessárias, citar-vos-ei as palavras que nos narra como, ao fugir de seu irmão Esaú, lhe apareceu esse que é anjo, Deus e Senhor, o mesmo que em forma de varão apareceu a Abraão e em forma de homem lutou com o próprio Jacó.
Ei-las: “Jacó partiu do poço do juramento e foi para Harã e depois a um lugar onde dormiu, pois o sol já se havia posto. Tomou uma pedra daquele lugar, a fez de travesseiro, dormiu naquele lugar e sonhou. Viu uma escada fixada na terra e cujo cimo chegava ao céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E o Senhor estava em cima dela.
E lhe disse: ‘Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e de Isaac. Não temas. Darei a ti e à tua descendência a terra sobre a qual dormes. E tua descendência será como o pó da terra e se expandirá até o mar, ao meio-dia, ao norte e a oriente. E em tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Vê: eu estou contigo, guardando-te em todo caminho por onde andares. Farei com que voltes a esta terra e não tenhas medo que eu te abandone até que se cumpra o que te disse’.
Jacó despertou de seu sonho e disse: ‘O Senhor está neste lugar e eu não sabia’. Teve medo e disse: ‘Este lugar é terrível! É a casa de Deus e a porta do céu.’ Jacó então se levantou, tomou a pedra que fizera de travesseiro, a dispôs em coluna e derramou óleo na sua ponta. E Jacó deu àquele lugar o nome de Casa de Deus. Antes a cidade se chamava Ulamarús”.