Diálogo de Justino Mártir com Trifão 34
Citar-vos-ei outro salmo, ditado pelo Espírito Santo a Davi, para mostrar que não entendeis nada das Escrituras, pois dizeis que se refere a Salomão, que foi também vosso rei, quando foi dito para o nosso Cristo. Vós vos deixais enganar pela semelhança das expressões. E assim, onde se fala da “lei irrepreensível do Senhor”, vós a interpretais como sendo a lei de Moisés e não daquela que deveria vir depois dele, visto que o próprio Deus grita que será estabelecida uma nova lei e uma nova aliança.
E onde se diz: “Ó Deus, concede ao rei o teu julgamento”, como Salomão foi rei, imediatamente aplicais o salmo a ele, quando suas próprias palavras estão anunciando que se refere a um rei eterno, isto é, a Cristo. Com efeito, Cristo, como eu vos demonstro por todas as Escrituras, é chamado rei e sacerdote, Deus, Senhor, anjo, homem, supremo general, pedra, menino recém-nascido; dele se anunciou que, primeiro nascido passível, devia depois subir ao céu e daí há de vir novamente com glória e possuir um reino eterno.
E para que entendais o que estou dizendo, repetir-vos-ei as palavras do salmo, que diz o seguinte:
“Ó Deus! Concede ao rei o teu julgamento e a tua justiça ao filho do rei, para que ele julgue o Teu povo com justiça e os necessitados com direito. Que os montes germinem paz para o povo e as colinas justiça. Ele fará justiça para os necessitados do povo, salvará os filhos dos pobres e humilhará o caluniador. Ele permanecerá com o sol e antes da lua, por gerações e gerações. Descerá como chuva sobre a lã e como gota que goteja sobre a terra.
Em seus dias florescerá a justiça e muita paz, até que a lua seja tirada de seu lugar. Dominará de mar a mar, dos rios aos confins da terra. Diante dele se prosternarão os etíopes e seus inimigos comerão o pó. Os reis de Társis e das ilhas lhe apresentarão oferendas; os reis dos árabes e de Sabá lhe trarão presentes, todos os reis da terra o adorarão e todas as nações o servirão. Porque ele libertará o necessitado de seu opressor e o pobre que não tem quem o ajude.
Perdoará o pobre e o necessitado, e salvará as vidas dos pobres, redimindo-os da usura e da iniquidade. E seu nome será precioso diante deles. Ele viverá e lhe será entregue ouro da Arábia. Continuamente elevarão preces para ele e o bendirão todo o dia. Haverá firmeza na terra; ele será levantado sobre os cumes dos montes. Seu fruto estará sobre o Líbano e da cidade florescerão como pó da terra.
Seu nome será bendito pelos séculos. Seu nome permanece antes do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra e todas as nações o proclamarão bem-aventurado. Bendito seja o Senhor Deus Israel, o único que faz maravilhas, e bendito o seu nome glorioso pelos séculos e pelos séculos dos séculos. E toda a terra ficará repleta de sua glória. Assim seja. Assim seja”. E no final do salmo, que acabo de citar, está escrito: “Fim dos hinos de Davi, filho de Jessé”.
Sei que Salomão, sob cujo reinado se construiu o chamado templo de Jerusalém, foi rei ilustre e grande. Contudo, é evidente que nada do que se diz no salmo aconteceu com ele. De fato, nem todos os reis se prosternavam diante dele, nem reinou até os confins da terra, nem seus inimigos, caindo a seus pés, comeram o pó.
Além do mais, atrevo-me a recordar aquilo que sobre ele está escrito nos livros dos Reis: por amor de uma mulher, cometeu idolatria em Sidônia. A isso não se submetem aqueles que, vindos das nações, conheceram a Deus, criador do universo, por meio de Jesus Cristo crucificado. Esses suportam todo tormento e castigo, até o extremo da morte, para não cometer idolatria, nem comer nada oferecido aos ídolos.