Diálogo de Justino Mártir com Trifão 138

A água e o batismo, a arca e a cruz

Eu prossegui:
Senhores, sabeis que em Isaías Deus diz a Jerusalém: “No dilúvio de Noé eu te salvei ”. O que Deus quis dizer com isso é que no dilúvio realizou-se o mistério daqueles que se salvam. De fato, o justo Noé, com os outros homens do dilúvio, isto é, sua mulher, seus três filhos e as mulheres de seus filhos, ao todo oito, representa o dia que por ser número é oitavo, no qual apareceu o nosso Cristo, ressuscitado dos mortos; embora, por sua virtude, continue sempre a ser o primeiro dia.
Dessa forma, Cristo, sendo primogênito de toda a criação, também se tornou princípio de uma nova descendência, regenerada por ele com a água, a e o madeiro que continha o mistério da cruz, de modo que também Noé se salvou com os seus, carregado sobre as águas pelo madeiro da arca. Portanto, quando o profeta diz: “No tempo de Noé eu te salvei”, ele fala, como eu disse antes, com o povo que tem para com Deus a mesma que Noé e os mesmos mistérios de salvação. Com efeito, com a vara entre as mãos, Moisés conduziu o vosso povo através do mar.
Claro que supondes que o profeta fala apenas de vosso povo ou terra; contudo, como consta pelas Escrituras que toda a terra foi inundada e a água subiu quinze côvados por cima de todos os montes, é claro que não falava da terra, mas do povo que obedece a Deus, a quem também tinha preparado de antemão um descanso em Jerusalém, como se pode demonstrar pelos mesmos símbolos que aparecem no dilúvio. Em outras palavras, pela água, pela e pelo madeiro, escaparão do futuro julgamento de Deus aqueles que de antemão foram previstos e fazem penitência de seus pecados.