Não Três Deuses 1

Saudação e Contexto

A Ablábio.
Você, que é forte com todo poder no homem interior, deveria, com toda justiça, enfrentar a luta contra os inimigos da verdade e não fugir da tarefa, para que nós, os pais, possamos nos alegrar com o nobre esforço de nossos filhos; pois essa é a motivação ditada pela lei natural. Mas, como você reorganiza suas fileiras e lança contra nós os ataques dessas flechas disparadas pelos oponentes da verdade, exigindo que sejam apagadas, com o escudo da fé, por nós, os mais velhos, aquelas brasas incandescentes e flechas afiadas pelo saber falsamente chamado de conhecimento, aceitamos sua ordem e damos exemplo de obediência, para que você mesmo nos o justo pagamento ao receber ordens semelhantes, Ablábio, nobre soldado de Cristo, caso algum dia o convoquemos a um combate como este.

O Dilema da Unidade Divina

Na verdade, a questão que você nos propõe não é pequena, nem é de pouca consequência o dano que pode ocorrer se tiver tratamento inadequado. Pois, pela força do questionamento, somos à primeira vista obrigados a aceitar uma ou outra dessas duas opiniões equivocadas: ou dizer que existem três Deuses, o que é proibido, ou não reconhecer a divindade do Filho e do Espírito Santo, o que é ímpio e absurdo.
O argumento que você apresenta é mais ou menos o seguinte: Pedro, Tiago e João, por estarem numa natureza humana, são chamados de três homens; e não nada de absurdo em descrever, pelo plural derivado de sua natureza, aqueles que estão unidos por ela, se forem mais de um. Se, então, nesse caso, a prática reconhece isso e ninguém proíbe que falemos de dois como dois, ou de mais de dois como três, como é que, em nossas exposições sobre os mistérios da Fé, mesmo confessando as Três Pessoas e não reconhecendo diferença de natureza entre elas, parecemos em certo sentido entrar em contradição com nossa confissão, quando dizemos que a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é uma só, mas, ao mesmo tempo, proibimos que se fale de três Deuses? A questão, como disse, é muito difícil de tratar; no entanto, se pudermos encontrar algo que apoio à nossa mente em dúvida, para que ela não vacile nesse horrível dilema, será proveitoso. Por outro lado, mesmo que nosso raciocínio não seja suficiente para resolver o problema, devemos manter para sempre, firme e inabalável, a tradição que recebemos por sucessão dos pais, e buscar no Senhor a razão que advoga nossa fé. Se ela for encontrada por alguém agraciado, devemos dar graças a Quem concedeu a graça; mas, se não for, ainda assim manteremos inalterável nossa quanto aos pontos estabelecidos.
Qual é, então, a razão pela qual, ao contarmos individualmente aqueles que compartilham uma mesma natureza, normalmente usamos o plural e falamos de tantos homens, em vez de chamá-los de um só; enquanto, no caso da natureza Divina, nossa definição doutrinária rejeita o plural de “Deuses” ao mesmo tempo em que enumeramos as Pessoas, sem, contudo, admitir a significação plural? Talvez alguém pareça tocar no ponto dizendo (falando espontaneamente para pessoas simples) que a definição se recusa a contar Deuses em número algum para evitar qualquer semelhança com o politeísmo dos pagãos; pois, se também enumerássemos a Divindade, não no singular, mas no plural, como eles costumam fazer, poderia parecer haver também certa comunhão de doutrina. Essa resposta, repito, se dada a pessoas mais ingênuas, poderia ter algum peso; mas para outros, que exigem que seja estabelecida uma das alternativas que propõem (ou que não reconheçamos a Divindade nas Três Pessoas, ou que, se o fizermos, falemos dos que compartilham a mesma Divindade como três), essa resposta não é suficiente para solucionar a dificuldade. Portanto, precisamos responder de forma mais detalhada, procurando a verdade da melhor maneira que pudermos, pois a questão não é simples.

Natureza, Operação e a Linguagem Humana

Dizemos, então, para começar, que a prática de chamar de plural, usando o próprio nome de sua natureza, aqueles que não estão divididos por natureza, dizendo que são muitos homens, é um uso incorreto da linguagem. Seria praticamente a mesma coisa dizer que eles são “muitas naturezas humanas”. E podemos ver a verdade disso pelo seguinte exemplo: quando nos dirigimos a alguém, não o chamamos pelo nome de sua natureza, para evitar que a comunidade do nome gere confusão, de modo que cada um dos ouvintes pense que ele próprio é quem está sendo chamado, pois o chamado não foi feito pelo nome próprio, mas pelo nome comum da natureza. Em vez disso, distinguimos a pessoa da multidão usando o nome que lhe é próprio isto é, o que indica o indivíduo em questão. Assim, muitos que participam da natureza vários discípulos, ou apóstolos, ou mártires mas “o homem” neles todos é um só; pois, como dissemos, o termo “homem” não pertence à natureza do indivíduo em si, mas àquilo que é comum. Por exemplo, Lucas é homem, ou Estêvão é homem; mas não se segue que, se alguém é homem, ele seja necessariamente Lucas ou Estêvão. A ideia das pessoas permite essa separação feita pelos atributos peculiares considerados em cada um, e, quando se combinam, é apresentada a nós por meio da quantidade; no entanto, a natureza neles é única em si mesma, absolutamente indivisível, incapaz de aumentar por acréscimo ou diminuir por subtração, mas, em sua essência, sendo e permanecendo continuamente uma, inseparável ainda que apareça em pluralidade, contínua, completa, e não se divide entre os indivíduos que a participam. E, assim como falamos de um “povo”, ou de uma “multidão”, ou de um “exército”, ou de uma “assembleia” no singular, ainda que cada caso seja concebido como uma pluralidade, também, pela expressão mais exata, deveria dizer-se que “o homem” é um só, mesmo que aqueles que se apresentam a nós em uma mesma natureza formem uma pluralidade. Seria muito melhor corrigir nosso hábito equivocado para não mais estender ao plural o nome de uma natureza, do que, por estarmos presos a esse hábito, transferir para nossas afirmações sobre Deus o erro que existe nesse caso. Mas, como a correção desse hábito é impraticável (pois como convencer alguém a não falar de tantos homens quando se tratam de vários apresentados na mesma natureza? De fato, é muito difícil mudar qualquer hábito estabelecido), não erramos tanto ao não ir contra o costume predominante no caso de uma natureza inferior, que dele não resulta prejuízo algum do uso incorreto do nome. Porém, no caso das declarações referentes à natureza Divina, o uso variado dos termos deixa de ser tão inofensivo, pois aquilo que é de pouca importância em outros assuntos aqui não é um detalhe pequeno. Portanto, devemos confessar um Deus, conforme o testemunho da Escritura: “Ouve, ó Israel, o Senhor teu Deus é um Senhor”, mesmo que o nome “Divindade” se estenda pela Santíssima Trindade. Digo isso de acordo com a explicação dada sobre a natureza humana, na qual aprendemos que não é correto ampliar, por marca de pluralidade, o nome dessa natureza. Contudo, precisamos examinar mais cuidadosamente o nome “Divindade” para obter, por meio do significado que está contido na palavra, alguma ajuda para esclarecer a questão que temos diante de nós.
A maioria das pessoas pensa que a palavra “Divindade” (Godhead) é usada, de modo especial, em referência à natureza. E assim como o céu, ou o sol, ou qualquer outro elemento que compõe o universo é nomeado por um termo adequado que represente cada sujeito, dizem que, no caso da natureza Suprema e Divina, a palavra “Divindade” convém àquilo que ela representa para nós, como um nome específico. Nós, ao contrário, seguindo as sugestões da Escritura, aprendemos que essa natureza é inominável e inefável, e dizemos que todo termo, seja inventado pelo costume humano ou legado a nós pelas Escrituras, serve de esclarecimento para nossa compreensão da Natureza Divina, mas não abrange a totalidade de seu significado. Pode-se mostrar facilmente que é assim. Pois todos os outros termos usados para a criação são, mesmo sem analisarmos sua origem, aplicados às coisas de maneira acidental; ficamos satisfeitos em designá-las por alguma palavra, de modo a distinguir cada uma delas e não confundi-las. Mas todos os termos empregados para conduzir-nos ao conhecimento de Deus trazem seu próprio sentido particular, e não se encontra nenhum termo, entre aqueles atribuídos especialmente a Deus, que seja destituído de um sentido próprio. Por isso, é evidente que cada termo que usamos não exprime diretamente a própria Natureza Divina, mas revela algum aspecto externo a Ela. Por exemplo, podemos dizer que a Divindade é incorruptível, poderosa ou qualquer outra coisa que costumamos dizer dEle. No entanto, cada uma dessas palavras tem um significado específico, adequado para ser compreendido ou afirmado da natureza Divina, mas não expressa o que ela é essencialmente. Pois o sujeito, seja ele qual for, é incorruptível; mas, ao dizer que algo é incorruptível, estamos descrevendo o que não acontece a essa natureza (ela não se decompõe), sem, contudo, dizer o que essa coisa é em si. Da mesma forma, ao dizer que Ele é o Doador da vida, embora indiquemos o que Ele concede, não revelamos o que concede. Pela mesma lógica, vemos que todos os atributos que resultam dos nomes que expressam as características divinas, ou impedem que imaginemos algo inadequado sobre a Natureza Divina, ou nos ensinam o que devemos pensar a Seu respeito, mas não incluem uma explicação de Sua própria essência. Sendo assim, ao percebermos as variadas ações desse poder acima de nós, formamos nossos nomes a partir de cada operação distinta que nos é conhecida. E, quando reconhecemos como uma dessas ações o ato de observar e inspecionar poderíamos chamar de “contemplar” pelo qual Ele tudo e observa, discernindo até nossos pensamentos e penetrando, por Seu poder contemplativo, naquilo que não é visível, supomos que a palavra “Divindade” (θεότης) derive de “θεά” (thea) ou “ver/observar” (em grego). Assim, Aquele que nos observa (θεατής) é chamado Deus (θεός), tanto pelo uso costumeiro quanto pela instrução das Escrituras. Se alguém admite que observar e discernir são a mesma coisa, e que o Deus que supervisiona todas as coisas realmente é e se chama Aquele que está sobre tudo, que examine essa operação e pergunte se ela pertence somente a uma das Pessoas nas quais cremos na Santíssima Trindade, ou se esse poder se estende pelas Três Pessoas. Pois, se nossa interpretação do termo “Divindade” ou “θεότης” for correta, e as coisas visíveis são as “contempladas” (θεατά), então Aquele que as contempla é chamado θεός (Deus). Ninguém poderia com razão excluir alguma das Pessoas da Trindade desse título, tomando como base o sentido que a palavra carrega. Pois as Escrituras atribuem igualmente o ato de ver ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Davi diz: “Vê, ó Deus nosso defensor”; e, com isso, aprendemos que ver é uma operação própria do conceito de Deus, pois ele diz: “Vê, ó Deus”. Mas também Jesus os pensamentos daqueles que O condenam e questiona a razão pela qual, por seu próprio poder, Ele perdoa os pecados dos homens. Pois está escrito: “Jesus, vendo os seus pensamentos”. E sobre o Espírito Santo, Pedro diz a Ananias: “Por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo?”, mostrando que o Espírito Santo foi testemunha verdadeira, ciente do que Ananias havia ousado fazer em segredo, e que foi por Ele que se revelou o oculto a Pedro. Pois Ananias se tornara ladrão de seus próprios bens, sem que ninguém visse, como ele pensava, e encobrindo seu pecado; mas o Espírito Santo, ao mesmo tempo, estava em Pedro e descobriu sua intenção, inclinada pela cobiça, concedendo a Pedro, de Si mesmo, o poder de discernir o que estava oculto. É claro que Ele não poderia ter feito isso se não tivesse a capacidade de contemplar as coisas escondidas.
Mas alguém poderá dizer que a prova do nosso argumento ainda não toca diretamente a questão. Pois, mesmo que se admita que a palavra “Divindade” é um nome comum à natureza, isso não demonstra que não devamos falar em “Deuses”; ao contrário, esses argumentos parecem nos levar a falar de “Deuses”. Porque vemos no uso comum da humanidade que não apenas aqueles que compartilham a mesma natureza, mas também todos os que exercem o mesmo ofício, não são mencionados no singular quando são muitos. Falamos em vários oradores, topógrafos, agricultores, sapateiros etc., e em todos os demais casos. Se, de fato, “Divindade” fosse um termo que expressa natureza, seria mais apropriado, conforme nosso argumento, que as Três Pessoas fossem incluídas pelo singular, dizendo “um Deus”, devido à inseparabilidade e indivisibilidade da natureza. Porém, que foi demonstrado que o termo “Divindade” expressa operação e não natureza, o raciocínio exposto parece conduzir ao oposto: deveríamos, portanto, chamar essas três Pessoas de “três Deuses”, caso sejam contempladas numa operação, do mesmo modo que se diria “três filósofos” ou “três oradores” ou qualquer outro nome derivado de um ofício, quando os que dele participam são mais de um.
Empenhei certo esforço em expor essa visão para apresentar a lógica dos adversários, a fim de que nossa conclusão seja ainda mais sólida, fortalecida por contradições minuciosas. Vamos agora retomar nosso argumento.

A Indivisibilidade da Ação Divina

que, em certa medida, demonstramos por meio de nossas explicações que o termo “Divindade” não se refere à natureza, mas à operação, talvez se possa apresentar uma razão pela qual, no caso dos homens, quando vários executam a mesma atividade, cada um o faz separadamente, por si mesmo, e por isso falamos deles no plural; ao passo que, em relação à Divindade, falamos de “um Deus” e de “uma Divindade”, ainda que as Três Pessoas não estejam excluídas do significado expresso pela palavra “Divindade”. Pode-se dizer, portanto, que, para os homens, mesmo que vários partilhem da mesma forma de agir, eles trabalham cada um em seu ofício, sozinho, sem participação de outros que estejam ocupados na mesma atividade. Por exemplo, se considerarmos vários retóricos, embora o ofício seja o mesmo e leve o mesmo nome em diversos casos, cada um pratica a retórica individualmente: este fala em seu próprio nome, aquele em seu próprio caso. Então, como a ação de cada um, ainda que idêntica em propósito, é distinta para cada indivíduo, faz sentido chamá-los de “muitos” pois cada um se diferencia dos outros pela forma como realiza sua ação. Mas, no caso da natureza Divina, não aprendemos da mesma forma que o Pai faça algo sozinho, sem a atuação do Filho, ou que o Filho exerça alguma operação separada do Espírito Santo. Toda ação que se estende de Deus à criação e que denominamos de acordo com nossos vários modos de compreender tem sua origem no Pai, passa pelo Filho e se completa no Espírito Santo. Por isso, o nome que se baseia na operação não é dividido de acordo com o número daqueles que a cumprem, pois a ação de cada Pessoa não é separada e particular, mas tudo que acontece, seja em nossa vida pela Providência divina, seja no governo e ordenamento de todo o universo, é efetuado pela ação conjunta das Três Pessoas, ainda que aquilo que de fato acontece não seja três coisas diferentes. Podemos entender isso com um exemplo único. Aquele que é a fonte de todos os dons, o Pai, concede vida a tudo que participa dessa graça. Se perguntamos, então, de onde vem esse dom a nós, as Escrituras nos guiam para entendermos que vem do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Contudo, embora confessemos Três Pessoas e três nomes, não consideramos que nos foram dadas três vidas uma do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo; mas a mesma vida se manifesta em nós pelo Pai, é preparada pelo Filho e depende da vontade do Espírito Santo. Sendo assim, como a Santíssima Trindade realiza toda operação de modo semelhante ao que descrevi, não por ações separadas, de acordo com o número das Pessoas, mas em um movimento e uma disposição da vontade, que se comunica do Pai, pelo Filho, ao Espírito Santo (pois, assim como não dizemos que os que dão uma vida são “três doadores de vida”, também não chamamos os que são contemplados numa única bondade de “três Bondosos”, nem usamos plural para falar de quaisquer outros atributos), não podemos chamar de “três Deuses” aqueles que exercem o poder e a operação divinos, que nos supervisionam e que agem para com a criação de forma conjunta e inseparável. Assim como, quando aprendemos pelas Escrituras que o Deus do universo “julga toda a terra”, dizemos que Ele a julga por meio do Filho; e também, quando ouvimos que “o Pai a ninguém julga”, não achamos que as Escrituras se contradizem pois Aquele que julga toda a terra faz isso por meio do Filho, a quem confiou todo julgamento, e tudo que o Filho faz em Seu julgamento é conforme a vontade do Pai. Não se pode dizer que existam dois juízes nem que um esteja excluído da autoridade e poder de julgar. Do mesmo modo, no caso da palavra “Divindade”, Cristo é “o poder de Deus e a sabedoria de Deus”, e o próprio poder de superintendência e contemplação, que chamamos de “Divindade”, o Pai exerce por meio do Unigênito, enquanto o Filho realiza todo poder pelo Espírito Santo, “julgando”, conforme diz Isaías, “pelo Espírito de juízo e pelo Espírito de ardor”, e também agindo por Ele, de acordo com o que o Evangelho diz aos judeus: “Se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus...”, onde abrange qualquer forma de fazer o bem em uma descrição parcial, devido à unidade de ação. Portanto, o nome derivado da operação não se divide em muitos, pois o resultado da operação mútua é um só.
Visto que o caráter de superintendência e observação é único no Pai, no Filho e no Espírito Santo, como foi exposto em nosso argumento anterior partindo do Pai como de uma fonte, sendo efetuado pelo Filho e completado em Seu poder pelo Espírito Santo e, que nenhuma ação é separada em relação às Pessoas, realizando-se individualmente, mas tudo relativo às obras de cuidado e governo é único, não havendo uma ação do Pai separada do Filho, nem a do Filho distinta da do Espírito, de modo que cada operação seja estritamente de uma Pessoa sem que a outra participe, então, também não podemos falar de “três Deuses”. Pois, do mesmo modo que, segundo o apóstolo Paulo, “um e o mesmo Espírito distribui os seus dons a cada um, como quer”, o movimento do bem que procede do Espírito não é sem princípio: encontramos, no entanto, que a fonte desse bem, o Deus Unigênito, é o Criador de todas as coisas, e “sem Ele, nada do que foi feito se fez”; e, novamente, essa mesma fonte do bem surge da vontade do Pai.
Se, então, todo bem e todo bom nome, que depende desse poder e propósito sem princípio, é levado à perfeição pelo poder do Espírito, por meio do Deus Unigênito, sem qualquer marca de tempo ou distinção (pois não intervalo, real ou imaginário, no movimento da vontade divina do Pai, pelo Filho, até o Espírito), e se “Divindade” também é um desses bons nomes e conceitos, não seria apropriado dividi-lo no plural, que a unidade de ação impede a enumeração plural. E assim como “o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem”, conforme diz o Apóstolo, é mencionado no singular, e ninguém a partir disso argumenta que o Filho não salva os que creem, ou que a salvação seja conferida aos que a recebem sem a atuação do Espírito pois Deus, que está acima de todos, é o Salvador de todos, enquanto o Filho realiza a salvação pela graça do Espírito e, ainda assim, as Escrituras não chamam, por conta disso, “três Salvadores” (embora se confesse que a salvação vem da Santíssima Trindade) —, do mesmo modo não dizemos “três Deuses”, segundo o sentido que atribuímos à palavra “Divindade”, ainda que esse nome se aplique à Santíssima Trindade.
Não me parece absolutamente necessário, para a prova de nosso argumento, discutir com aqueles que se opõem dizendo que não devemos conceber a Divindade como operação. Pois nós, que cremos que a natureza divina é ilimitada e incompreensível, não aceitamos que haja qualquer delimitação dela, mas afirmamos que ela deve ser reconhecida, de todas as formas, como infinita; e aquilo que é absolutamente infinito não está limitado num aspecto e ilimitado em outro: o infinito está livre de qualquer limitação. Portanto, o que não tem limite não pode ser limitado nem mesmo por um nome. Assim, para manter a coerência de nossa concepção de infinitude no caso da natureza divina, dizemos que a Divindade está acima de todo nome; mas “Divindade” é um nome. Ora, não é possível que algo seja, ao mesmo tempo, um nome e também esteja acima de todo nome.
Porém, se agrada aos nossos adversários dizer que o significado do termo não é operação, mas natureza, retornaremos a nosso argumento inicial: o uso do nome de uma natureza aplicado a uma pluralidade é incorreto, pois, de acordo com o raciocínio correto, não ocorre diminuição nem acréscimo a qualquer natureza quando ela é vista em um número maior ou menor de indivíduos. Somente as coisas que são contempladas como individualmente delimitadas podem ser enumeradas por adição. Essa delimitação é definida pela aparência corporal, tamanho, local, figura, cor e demais critérios. Aquilo que não é delimitado por essas condições não é enumerado; e aquilo que não pode ser enumerado não pode ser considerado como plural. Pois dizemos que o ouro, mesmo se for recortado em várias formas, ainda é um só, e falamos dele como um só; mas podemos falar em várias moedas ou estáteres, sem que o número das moedas multiplique a natureza do ouro. E, por isso, quando o ouro é visto em maior quantidade, seja em barras ou moedas, dizemos que é muito ouro, mas não dizemos que são “muitos ouros” por conta da quantidade do material a não ser que digamos que muitas peças de ouro (como dáricos ou estáteres); nesse caso, não descrevemos a matéria, mas as peças em si. E, estritamente falando, não as chamaríamos de “ouro”, mas de “douradas”.
Assim como as moedas de ouro são muitas, mas o ouro é um só, assim também Pedro, Tiago e João, que aparecem para nós na natureza de homem, são muitos, mas “o homem” neles é um só. Embora a Escritura frequentemente use o termo em plural, como “os homens juram por alguém maior” ou “filhos dos homens”, e em outras expressões semelhantes, devemos entender que, ao empregar o costume geral de linguagem, não está legislando sobre a correção ou não dessas expressões, nem nos instruindo quanto ao modo de falar; antes, usa a linguagem comum com o único objetivo de ser compreensível e útil àqueles que a recebem, sem minúcias de expressão em casos onde não erro na compreensão.
De fato, seria uma tarefa extensa elencar detalhadamente expressões bíblicas que são imprecisas a fim de comprovar o que afirmei; mas, quando perigo de gerar alguma compreensão incorreta da verdade, não vemos nas Escrituras qualquer uso indiferente ou negligente das palavras. Por isso, a Escritura aceita que falemos de “homens” no plural, pois ninguém, ao usar essa forma de falar, é levado a imaginar múltiplas humanidades ou supor que muitas naturezas humanas sejam indicadas pelo plural. Mas, no caso de Deus, a Escritura sempre emprega o singular, para evitar que, pela forma plural “Deuses”, surja a noção de diferentes naturezas na essência Divina. Por essa razão, diz: “O Senhor nosso Deus é um Senhor”, e proclama o Filho Unigênito como Deus, sem dividir a unidade em sentido dual, de modo que o Pai e o Filho sejam chamados de dois Deuses, apesar de cada um ser proclamado como Deus pelos escritores sagrados. O Pai é Deus, o Filho é Deus, mas, ainda assim, a mesma proclamação diz que Deus é um só, porque não qualquer diferença, seja de natureza ou de operação, na Divindade. Pois se, de acordo com a concepção dos que se desviaram, a natureza da Santíssima Trindade fosse diversa, consequentemente haveria pluralidade de Deuses, divididos pela diversidade de essência nos sujeitos. Mas, como a natureza divina é única, simples e imutável, para que seja uma, ela exclui qualquer diversidade de essência. Assim, ela não permite o plural, mas, do mesmo modo que se diz haver uma natureza, também se fala de modo singular para todos os seus outros nomes: Deus, Bom, Santo, Salvador, Justo, Juiz e qualquer outro nome divino concebível. Quer se diga que esses nomes se refiram à natureza ou à operação, não discutiremos isso aqui.

Relação de Causa e Conclusão

Se, porém, alguém objetar que, ao não admitirmos diversidade de natureza, nosso argumento leva à mistura e confusão das Pessoas, responderemos a tal objeção desta forma: ao confessarmos a constância da natureza, não negamos a distinção entre a Causa e aquilo que é causado, única diferença pela qual compreendemos que uma Pessoa se distingue de outra a saber, cremos que uma é a Causa, e a outra procede da Causa; e, novamente, naquele que procede da Causa, reconhecemos outra distinção. Pois um vem diretamente da Causa primeira, e o outro vem daquele que vem diretamente da Causa primeira; de modo que o atributo de Unigênito permanece incontestável no Filho, e a mediação do Filho, ainda que preserve Seu atributo de Unigênito, não exclui o Espírito de Sua relação natural com o Pai.
Mas, ao falarmos de “causa” e “do que é causado”, não estamos definindo a natureza (pois ninguém definiria “causa” e “natureza” do mesmo modo), mas indicamos a diferença no modo de existência. Ao dizermos que um é “causado” e outro não, não dividimos a natureza pela palavra “causa”, apenas manifestamos o fato de que o Filho não existe sem geração e que o Pai não existe por geração. Primeiro se faz necessário acreditar que algo existe e, depois, investigar seu modo de existência. Assim, a existência é uma questão, e o modo de existência é outra. Dizer que algo existe “sem geração” descreve o modo como ele existe; mas não diz o que é essa coisa. Se alguém perguntasse a um agricultor sobre uma árvore, querendo saber se ela foi plantada ou se brotou sozinha, e ele respondesse que a árvore não foi plantada ou que resultou de plantio, não definiria, com isso, a natureza da árvore, mas apenas explicaria como ela existe, deixando sua natureza ainda desconhecida. Da mesma maneira, ao dizermos que (o Pai) é Ingerado, aprendemos Seu modo de existência e como devemos concebê-Lo; mas não “o que Ele é”. Portanto, quando reconhecemos tal distinção na Santíssima Trindade crendo que uma Pessoa é a Causa e outra procede da Causa —, não podem mais nos acusar de confundir a definição das Pessoas por causa da comunhão na mesma natureza.
Assim, que, por um lado, a ideia de “causa” diferencia as Pessoas da Santíssima Trindade declarando que uma existe sem Causa e outra é da Causa e, por outro lado, a natureza Divina é entendida por qualquer concepção válida como imutável e indivisível, por esses motivos declaramos corretamente que a Divindade é uma e Deus é um só, empregando no singular todos os nomes que expressam atributos divinos.