Diálogo de Justino Mártir com Trifão 99
Comentários ao salmo 22:2-3
Dito isso, acrescentei:
— Demonstrar-vos-ei que todo esse salmo foi dito em relação a Cristo. Para isso, comentarei novamente algumas passagens. As próprias palavras com que ele começa: “Ó Deus, ó meu Deus, por que me abandonaste?” predisseram muito tempo atrás o que Cristo deveria dizer. Com efeito, ao ser crucificado, ele disse: “Deus, Deus meu, por que me abandonaste?”
E as palavras seguintes também se referem à coisas que ele deveria fazer. “Longe da minha salvação as palavras dos meus pecados. Ó Deus meu, gritarei durante o dia a ti, e tu não me escutarás; gritarei à noite, e não é coisa que eu ignore”. Foi assim que na noite em que ia ser crucificado, tomando consigo três dos seus discípulos, dirigiu-se ao monte chamado das Oliveiras, situado próximo ao templo de Jerusalém, e ali orou, dizendo: “Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice”. Pouco depois, acrescenta em sua oração: “Não como eu quero, mas como tu queres”. Com isso ele manifestava que era verdadeiramente homem passível.
E para que ninguém objetasse: “Ele ignorava que teria de padecer?” acrescenta-se imediatamente no salmo: “E não é coisa que eu ignore”. Do mesmo modo como também Deus não ignorava nada, quando perguntou a Adão onde estava e a Caim sobre o paradeiro de Abel, mas desejava interrogar cada um sobre o que era e para que até nós chegasse o co-nhecimento de tudo, ficando consignado por escrito, assim Jesus deu a entender que não agia por própria ignorância, mas denunciava a ignorância daqueles que acreditavam que ele não era o Cristo e imaginavam que o conduziriam à morte e que, como um homem qualquer, permaneceria para sempre na região dos mortos.