Diálogo de Justino Mártir com Trifão 4

Pode o homem ver a Deus?

Ele me disse:
Então a nossa inteligência tem uma força tão grande ou compreende a coisa por meio da sensação? Será que a inteligência humana é capaz de ver a Deus se não estiver adornada com o Espírito Santo.
Eu respondi:
Platão, de fato, afirma que assim é o olho da inteligência, e que ela nos foi dada exatamente para contemplar com ele, por ser olho puro e simples, aquele mesmo que é causa de tudo o que é inteligível, sem ar, sem forma, sem tamanho, sem nada daquilo que o olho vê, mas que é o próprio ser, indizível e inexplicável, além de toda a essência, o único belo e bom que aparece imediatamente nas almas de excelente natureza, por aquilo que tem de semelhante a ele e por seu desejo de contemplá-lo.
Ele me perguntou:
Qual é a nossa semelhança com Deus? Será que a alma é divina e imortal, uma partícula daquela soberana inteligência, e como aquela a Deus, também é possível para a nossa comprender a divindade e gozar a felicidade que dela provém?
Eu respondi:
Sem dúvida nenhuma.
Ele continuou:
E todas as almas dos seres vivos têm a mesma capacidade? Ou a alma dos homens é diferente da alma de um cavalo ou de um jumento?
Eu respondi:
Não nenhuma diferença. Elas são as mesmas em todos.
Então ele concluiu:
Logo, os cavalos e os asnos também vêem a Deus ou o terão visto!
Repliquei:
Não. Nem mesmo muitos homens o vêem. Para isso, é preciso que se viva com retidão, depois de se purificar com a justiça e todas as outras virtudes.
Ele continuou:
Então o homem não a Deus por causa de sua semelhança com ele, nem porque tem inteligência, mas porque é sensato e justo.
Eu respondi:
Exatamente. E porque tem capacidade para entender a Deus.
Então ele perguntou:
Muito bem. Será que as cabras e ovelhas cometem injustiça contra alguém?
Eu contestei:
De modo nenhum.
Ele replicou:
Então, segundo o teu raciocínio, também esses animais verão a Deus.
Eu respondi:
Não. Porque o corpo deles, segundo a sua natureza, os impede.
Ele me interrompeu:
Se esses animais recebessem voz, talvez com muito maior razão prorromperiam em injúrias contra o nosso corpo. Todavia, deixemos esse assunto e aceitemos o que dizes. Dize-me apenas uma coisa: a alma a Deus enquanto está no corpo ou quando está separada dele?
Eu respondi:
É possível para ela, mesmo estando na forma humana, chegar a isso por meio da inteligência.
Contudo, desligada do corpo e tornada ela mesma, é então que ela alcança tudo aquilo que almejou durante todo o tempo.
Ele perguntou:
E ela se lembra disso quando volta outra vez ao homem?
Penso que não.
Ele continuou:
Então, que proveito ela tira de vê-lo, ou que vantagem tem aquele que viu sobre aquele que não viu, uma vez que disso não permanece nenhuma lembrança?
Eu disse:
Não sei o que te responder.
Ele perguntou:
E que castigo sofrem aquelas julgadas indignas dessa visão?
Respondi:
Vivem acorrentadas no corpo de feras, e esse é o castigo delas.
Ele replicou:
E elas sabem que vivem nesses corpos por essa causa, como castigo de algum pecado?
Penso que não.
Ele concluiu:
Portanto, nem essas tiram proveito algum de seu castigo. E eu diria ainda que nem castigo sofrem, uma vez que não têm consciência do castigo.
Eu concordei:
Sim, de fato.
Ele continuou:
Portanto, nem as almas vêem a Deus, nem transmigram para outros corpos, pois dessa forma elas saberiam que esse é o seu castigo e temeriam cometer o mais leve pecado no corpo sucessivo.
Contudo, também concordo que elas sejam capazes de entender que Deus existe e que a justiça e a piedade são um bem.
Eu concordei:
Falaste corretamente.