Diálogo de Justino Mártir com Trifão 17
Justino acusa os judeus pelas iniquidades de todos os homens
As outras nações não têm tanta culpa da iniquidade que se comete contra nós e contra Cristo como vós, que sois a causa do preconceito injusto que elas têm contra ele e contra nós, que viemos dele. Com efeito, depois de crucificar aquele que era o único homem irrepreeensível e justo, por cujas feridas são curados os que se aproximam do Pai por meio dele, quando soubestes que havia ressuscitado e subido aos céus como as profecias haviam anunciado, não só não fizestes penitência de vossas más ações, mas escolhestes homens especiais de Jerusalém e os mandastes por todo o mundo, a fim de espalhar que havia aparecido uma ímpia seita de cristãos e espalharam as calúnias que todos aqueles que não vos conhecem repetem contra nós. De modo que não só sois culpados de vossa própria iniquidade, mas também da iniquidade de todos os homens,
e com razão Isaías clama: “Por vossa culpa o meu nome é blasfemado entre as nações”. E: “Ai da alma deles! Pois tomaram um mau conselho contra si próprios, dizendo: ‘Acorrentemos o justo, pois ele nos molesta’. Por isso, eles comerão o fruto de suas obras. Ai do iníquo! Os males lhe acontecerão, conforme as obras de suas mãos”. E diz novamente em outra passagem: “Ai dos que arrastam seus pecados como uma longa corda e suas iniquidades como o tirante de um jugo de novilha; os que dizem: ‘Que se apresse logo e chegue já o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos’. Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal, dos que transformam a luz em trevas e as trevas em luz, dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo”.
Vós, portanto, vos empenhastes para que se espalhasse por todo o mundo calúnias amargas, tenebrosas e iníquas contra aquele homem, o único sem culpa e justo, enviado por Deus aos homens. De fato, ele vos pareceu molesto, quando gritava entre vós: “Minha casa é casa de oração, e vós a transformastes num covil de ladrões.” E jogou pelo chão as mesas dos cambistas que estavam no Templo,
e gritou: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã e da arruda, e não pensais no amor de Deus e na justiça. Sepulcros caiados, que parecem bonitos por fora e por dentro estão cheios de ossos de cadáveres.” E aos escribas: “Ai de vós, escribas, pois tendes as chaves e não entrais, nem deixais entrar os que querem. Guias cegos! ”