Diálogo de Justino Mártir com Trifão 110
Sobre as duas vindas de Cristo
Terminada a citação, acrescentei:
— Senhores, sei muito bem que vossos mestres reconhecem que todas as palavras dessa passagem se referem a Cristo. Contudo, sei também, por suas afirmações, que o Cristo ainda não veio e, caso tivesse vindo, ninguém sabe quem ele é. Quando se apresentar de modo claro e glorioso, então se reconhecerá quem ele é, dizem eles.
E então, acrescentam, cumprir-se-á o que se diz nessa passagem da profecia, como se agora suas palavras não tivessem nenhum cumprimento. Os insensatos não compreendem o que todos os meus raciocínios demonstraram, isto é, que estão anunciadas duas vindas de Cristo: uma, em que se predisse que apareceria passível, sem glória, sem honra, e seria crucificado; outra, em que viria dos céus com glória, quando o homem da apostasia, aquele que profere insolências contra o Altíssimo, se atrever a cometer iniquidades contra nós, cristãos, contra nós que, conhecendo a religião através da lei e da palavra que saiu de Jerusalém pela obra dos apóstolos de Jesus, nos refugiamos no Deus de Jacó e no Deus de Israel.
Nós estávamos antes cheios de guerra, de mortes mútuas e de toda maldade, mas renunciamos em toda a terra aos instrumentos guerreiros e transformamos as espadas em arados e as lanças em instrumentos para cultivar a terra, e cultivamos a piedade, a justiça, a caridade, a fé e a esperança, que nos vêm de Deus Pai por meio do seu Filho crucificado. Cada um de nós senta-se debaixo da sua parreira, isto é, cada um usa apenas de sua legítima mulher. Com efeito, vós sabeis que a palavra profética diz: “E sua mulher como vinha fértil”.
É claro que ninguém é capaz de nos intimidar ou nos submeter à servidão, nós que, em toda a terra, cremos em Jesus. Decapitam-nos, pregam-nos em cruzes, atiram-nos às feras, à prisão, ao fogo, e nos submetem a todo tipo de torturas. Todavia, está à vista de todos que não apostatamos de nossa fé. Ao contrário, quanto maiores são os nossos sofrimentos, mais ainda se multiplicam os que abraçam a fé e a piedade pelo nome de Jesus. Da mesma forma que se faz com a vinha, à qual se podam os galhos que já deram fruto, para que brotem outros fortes e férteis, o mesmo acontece conosco. Com efeito, a vinha plantada por Deus e pelo Cristo Salvador é o seu povo.
O resto da profecia, de fato, cumprir-se-á em sua segunda vinda. Falar da atribulada e expulsa é dizer que, quanto ao que depende de vós e de todos os outros homens, cada cristão é expulso não só de suas próprias posses, mas do mundo inteiro, pois não permitis o direito à vida a nenhum deles.
Vós, todavia, dizeis que isso aconteceu ao vosso povo; porém, se sois expulsos, depois que fostes derrotados na guerra, com razão sofreis isso, como o testemunham todas as Escrituras. Nós, contudo, que nada de semelhante fizemos, uma vez que reconhecemos a verdade de Deus, dele recebemos o testemunho de que nos tira da terra junto com Cristo, o mais justo, o único sem mancha ou pecado. Isaías clama: “Eis como o justo pereceu e ninguém percebe em seu coração; homens justos são eliminados e ninguém considera isso”.