Diálogo de Justino Mártir com Trifão 105

Comentários ao salmo 22:20-22

O salmo continua: “Tu, porém, Senhor, não afastes de mim a tua ajuda, atende à minha proteção. Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação”. Tudo isso é ensinamento e anúncio do que nele tem e teve de acontecer. De fato, como indiquei, tal como aprendemos pelas Memórias, ele é o unigênito do Pai do universo, particularmente nascido deste como Verbo e Potência, e depois nascido da virgem como homem.
Também estava predito que ele morreria crucificado. Com efeito, as palavras: “Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação”, davam igualmente a entender qual era o suplício pelo qual ele deveria morrer, isto é, pela cruz. antes vos interpretei que os chifres do unicórnio somente podem aludir à forma da cruz.
Ao pedir que livrasse sua alma da espada, da boca do leão e da pata do cão, estava pedindo que ninguém se apoderasse de sua alma, a fim de que nós, ao chegarmos ao fim de nossa vida, peçamos o mesmo Deus, o qual pode afastar de nós todo anjo im-piedoso e mau, para que não se apodere de nossa alma.
vos demonstrei que as almas sobrevivem através do fato de que a alma de Samuel foi evocada pela pitonisa, como Saul lhe havia pedido. Daí se que todas as almas de homens tão justos e profetas como Samuel podem cair sob o poder de potências semelhantes àquela que operava na pitonisa e pelos próprios fatos temos que confessar isso.
Por isso, Deus nos ensinou por seu próprio Filho a lutar com todas as nossas forças para sermos justos e pedir, ao sair deste mundo, que nossa alma não caia em poder de nenhuma potência semelhante. Assim, no momento de entregar seu espírito sobre a cruz, ele disse: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito, como se sabe pelas Memórias.
Ele também exortava seus discípulos a superar a conduta dos fariseus, pois do contrário não se salvariam. Nas Memórias está escrito que ele disse: “Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”.